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Sol: a mártir do pernambucano Urariano Mota (e a poesia de Mario Benedetti)
Ao receber o livro do meu amigo Urariano Mota,Soledad no Recife,não tive outra escolha após ler os textos do Alípio Freire e a apresentação do Flávio Aguiar:Primeiro fui passar um novo café...
Luiz de Almeida (*) | Carta Maior | 24-10-2009 a las 14:26 | 643 lecturas
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É a Sollll... ? Confirmei ser realmente a Sol, Soledad Barrett Viedma.

Minhas lentes já estavam vencidas, prejudicando assim qualquer esforço para uma rápida leitura, mesmo tendo a prática da leitura dinâmica. Mas, ao receber o livro do meu amigo Urariano Mota, Soledad no Recife, não tive outra escolha após ler os textos do Alípio Freire e a apresentação do Flávio Aguiar: Primeiro fui passar um novo café, conferir o maço de cigarros e ajeitar o abajur ao lado da escrivaninha.

Enquanto a água fervia, lembranças já vagaram e divagaram pela mente: ditadura militar, 1970, Grêmio Estudantil Guilherme de Almeida e o grande jornal “Cadelão Taimes” (Não é erro de digitação, o jornal tinha esse “nome”), DOI/CODI, OBAN, Cemitério Dom Bosco no Distrito de Perus/SP, assassinato do José Maria Ferreira Araújo (ou Edson Cabral Sardinha), assassinato do jornalista Luiz Eduardo Merlino (SP), Mário Alves (RJ), o sumiço do Rubens Paiva, e... Mentira, traição e medo. Um resíduo de raiva parecia renascer dentro do peito trazendo a execrabilidade da minha paz interior.

Nas primeiras páginas não consegui discernir o escritor do personagem. Vibrei. Ele seria ele uma testemunha ainda viva? Aos poucos essa pré dedução foi sendo desfeita pela imaginável fisionomia facial e contornos corporais de Soledad. Daniel seria apenas um coadjuvante. E fui degustando página a página, um café, outro cigarro, divagações entre uma tragada e outra, novas lembranças... Meu Deus, quatro horas da madrugada e só então percebi que havia parado de ler na página 86. O café não desceu e com as mãos trêmulas, mal consegui ascender mais um cigarro. Um trepidar incontrolável dos lábios, soluços e lágrimas.

As palavras do cabo Anselmo descritas por Urariano fizeram-me estremecer de raiva. Episódios de traição maligna medraram na minha mente. Lembrei-me do episódio do “Cadelão Taimes”, o­nde eu e meus outros amigos fomos abandonados por um “anselmo” do grupo que se passava por amigo, justo nas ocorrências da censura e prisão do Jornal. Descobria ou relembrava, não sei até agora discernir corretamente, que aqui em Piraju também existiu e ainda vive um traidor com atitudes similares às do mentiroso, covarde e traidor cabo Anselmo, pois no momento do aperto, enquanto éramos “solicitados” para deixar a escola e chamados para depoimentos, como fui no DOI/SP, o borra-botas fugiu.

E continua assim até hoje, mentiroso e traidor. Apesar de tudo: sinto pena, pois ao vê-lo pelas ruas só consigo avistar um derrotado e sem prestígio, e que ainda se presta ser boi-de-piranha no meio político daqui. É ainda daqueles que mente e acredita nas suas próprias mentiras.

Mais calmo, retomei o livro e custou-me parar de virar e desvirar as páginas 89 até a 86. Aquelas imagens de Soledad me cativaram. O sorriso estampado numa face sincera reflete bem o eu interior daquela mulher. Sorriso igual só havia visto em 1970, na face de outra mulher, minha mãe, de nome Zita, ao ver-me entrando portão adentro retornando de São Paulo após uma noite e um dia de privação no DOI, ocasião que fui salvo pelo meu tio Luiz Alves de Almeida, um sargento da antiga polícia Metropolitana e participante ativo da OBAN, que somente em 2007 fiquei sabendo que havia falecido. A causa-morte eu não sei até hoje.

Li até a síntese biográfica. Já era dia. Meus olhos ardiam e a língua ficara áspera de tanto café e cigarros. Não estava com sono, mas ainda em estado de raiva e êxtase misturados. Esqueci da Sol e lembrei-me do Urariano. Voltei abrir o livro no “capítulo 13”: Um livro se constrói sob dificuldades – na penúltima linha o­nde Urariano cravou: “(...). Bem sei que autores não choram. Autor deve ser duro e frio. (...)”. Aqui, o único ponto que discordei do Urariano, pois se “autores” não choram, não têm o direito de fazer seus leitores chorarem.

Está marcado para o final deste mês, provavelmente no dia 25, eu ler este livro novamente. Só que agora o lerei em voz alta e com platéia. Essa platéia é especial, pois será composta de apenas duas pessoas. Um casal amigo. Moram em Botucatu/SP. Ele é cego. Estudou comigo no colégio interno quando tínhamos 12, 13 anos. Em 1971, numa manifestação estudantil, estilhaços de uma possível granada desfiguraram seu rosto e a visão. Era um líder estudantil e cursava medicina. Hoje, casado com aquela que foi sua namorada desde 1970, escutei seus berros de alegria e urros e mais urros quando falei com ele ao telefone e contei sobre o livro do Urariano que acabara de ler.

E ouvia sua esposa, ao seu lado, dizendo: é a Sol assassinada em Recife, é a Sollll...

Confirma o livro é sobre a Sol. Perguntaaaa.

E foi o que aconteceu.

Confirmei ser realmente a Sol, Soledad Barrett Viedma.

 

   

Título: Soledad no Recife

Autor(a): Urariano Mota

Prefácio: Flávio Aguiar

Páginas: 120

Ano de publicação: 2009

Preço: R$ 29,00

 

*Luiz de Almeida (57): Piraju, São Paulo. Escritor e Pesquisador da Semana de Arte Moderna de 22 e Seus Personagens. Autor do livro de poemas ECOS. Moderador do Blog Retalhos do Modernimo - http://literalmeida.blogspot.com

***********************

Soledad foi torturada e morta no Recife, Pernambuco em 1973, entregue ao torturador Fleury pelo marido, o cabo Anselmo. Estava grávida, com cinco meses.

 

MORTE DE SOLEDAD BARRET

 

Viveste aqui por meses ou por anos

traçaste aqui uma reta de melancolia

que atravessou as vidas e a cidade

 

Faz dez anos tua adolescência foi notícia

te marcaram as coxas porque não quiseste

gritar viva hitler nem abaixo fidel

eram outros tempos e outros esquadrões

porém aquelas tatuagens encheram de assombro

a certo uruguai que vivia na lua


e claro então não podias saber

que de algum modo eras

a pré-história do íbero


agora metralharam no recife

teus vinte e sete anos

de amor de têmpera e pena clandestina


talvez nunca se saiba como nem por quê

 

os telegramas dizem que resististe

e não haverá mais jeito que acreditar

porque o certo é que resistias

somente em te colocares à frente

só em mirá-los

 

só em sorrir

só em cantar cielitos com o rosto para o céu

 

  com tua imagem segura

com teu ar de menina

podias ser modelo

atriz

miss paraguai

capa de revista

calendário

quem sabe quantas coisas

 
porém o avô rafael o velho anarco

te puxava fortemente o sangue

e tu sentias calada esses puxões

 

soledad solidão não viveste sozinha

por isso tua vida não se apaga

simplesmente se enche de sinais

 

soledad solidão não morreste sozinha

por isso tua morte não se chora

simplesmente a levantamos no ar

 

desde agora a nostalgia será

um vento fiel que flamejará tua morte

para que assim apareçam exemplares e nítido

 

as franjas de tua vida


ignoro se estarias

de minissaia ou talvez de jeans

quando a rajada de pernambuco

acabou completo os teus sonhos

 

pelo menos não terá sido fácil

cerrar teus grandes olhos claros

teus olhos o­nde a melhor violência

se permitia razoáveis tréguas

para tornar-se incrível bondade

 

e ainda que por fim os tenham encerrado

é provável que ainda sigas olhando

soledad compatriota de três ou quatro povos

o limpo futuro pelo qual vivias

e pelo qual nunca te negaste a morrer.




Mario Benedetti

 
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