A cena repete-se. Como há um ano, Sócrates aparece em fim de Verão anunciando o recuo do desemprego e a recuperação económica. Que interessa que daqui por dois meses, passado o efeito sazonal decorrente da afluência turística, os números do desemprego voltem a agravar-se e a recuperação económica, já de si de tão magra e inexpressiva, volte aos valores negativos do costume. O que interessa é o efeito imediato, a procura de fictícias e momentâneas vantagens sobre o rival da alternância, o PDS. Toda esta discussão em torno do que dizem o lideres do PSD e do PS sobre questões secundárias e que só interessam às respectivas clientelas, mas deixam de fora os reais problemas do país e dos sofrem diariamente na pele a exploração capitalista, dos mais de dois terços de portugueses que tem de sobrevir com menos de 500 euros mensais é bem demonstrativa da falta de seriedade da classe política dominante. Portugal continua a ser o país europeu com maior disparidade entre ricos e pobres e onde esse fosso se continua a largar; é o país onde a classe dominante se faz pagar acima dos níveis praticados na Europa e nos EUA; onde a dívida externa se está a aproximar do 150% da riqueza produzida, fazendo de Portugal o país europeu mais endividado (e com larga vantagem para a Grécia). O descalabro financeiro e económico, a quebra continuada da capacidade de criar riqueza, a fuga de capitais e a destruição do tecido produtivo atingiram um tal nível que hoje já só podemos sobrevir à custa do endividamento externo. A situação é de tal forma grave que se começa a falar no colapso da segurança social na próxima década, deixando milhões de reformados na miséria. Mas nada disto preocupa os nossos políticos, à direita e à esquerda. Como cinicamente se dizia à uma duas décadas, viajamos direitos ao abismo, mas em primeira classe.
Exemplo da falta de seriedade do governo quando fala de desemprego e de recuperação económica são os números revelados quase em simultâneo pelos sindicatos algarvios (a região do país onde se faz sentir com maior intensidade a suposta recuperação resultante da sazonalidade da industria turística).
Em plena época alta do turismo estavam inscritos no Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) mais de 20 mil desempregados na região, o pior registo oficial do mês de Julho das últimas décadas, revela a União dos Sindicatos do Algarve (USAL) que, citando dados daquele instituto relativos a Julho, afirma que existiam no Algarve 22.627 desempregados, 1.389 dos quais inseridos em programas ocupacionais, valores provavelmente “jamais atingidos”. Os mesmos dados apontam para um crescimento homólogo do desemprego na ordem dos 24,5 por cento, enquanto a média de crescimento homólogo no país foi de 10,3 por cento, refere a USAL. “Em Julho de 2010 existiam mais 3.997 desempregados do que no mesmo mês do ano anterior e, comparando com 2008, constata-se que em dois anos há mais 13.290 desempregados no Algarve”.
Numa época em que o desemprego tende a diminuir – a região é fortemente marcada pelo emprego sazonal -, são legítimas as “piores expectativas” quanto à situação económica e social do Algarve para o próximo semestre, diz a USAL.
Situação que se poderá vir a agravar, diz a USAL, com o previsível encerramento de “múltiplas micro e pequenas empresas” até ao final do ano na região, o que pode conduzir a que a actual crise tome ainda contornos mais graves.
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