O fator de produção mais importante para qualquer economia é a qualidade da sua força de trabalho, que, por sua vez, depende fundamentalmente da qualidade do sistema educacional. Já a qualidade da educação universitária depende da simbiose entre o ensino e a pesquisa, que proporcionam aos estudantes a capacidade intelectual de gerar inovações científicas e tecnológicas. Este tem sido o pilar central do sistema universitário desenvolvido na Alemanha por Wilhelm von Humboldt, mas as chamadas "reformas de Bolonha", que submeteram as universidades alemãs aos métodos administrativos "pós-modernos" desenvolvidos nos EUA, estão solapando as bases, tanto do sistema universitário como da economia alemã. As "reformas de Bolonha" foram lançadas há uma década, a partir de uma reunião dos ministros das Ciências e da Educação europeus, naquela cidade italiana, onde concordaram em harmonizar os padrões da educação superior no âmbito da União Européia (UE), introduzindo o sistema estadunidense de "bacharel/mestre".
Na Alemanha, as reformas eliminaram o Diplom como o principal grau acadêmico. Esta não é uma formalidade, pois remete ao coração do sistema universitário alemão. Em 1997, o então ministro da Educação Jürgen Rüttgers declarou que "o sistema universitário de Humboldt está morto". O que isto significa?
O cerne do sistema universitário criado por Humboldt é a unidade da pesquisa e do ensino. O ensino universitário significa transmitir o conhecimento científico existente aos estudantes; a pesquisa significa transcender as fronteiras do conhecimento científico existente. Para a maioria dos estudantes, as reformas reduziram a educação universitária a uma mera "digestão" do conhecimento existente, ao mesmo tempo em que reduzia drasticamente a capacidade de pesquisa nas universidades.
Nos últimos anos, tem se acumulado um ressentimento contra as reformas nas universidades alemãs, que já começa a provocar protestos estudantis generalizados. A maioria dos professores concorda plenamente com os protestos e a maioria dos políticos, que aprovaram as reformas na marra, agora, manifestam "compreensão" pelas reações dos estudantes e falam da necessidade de "reformar o sistema".
O que estava realmente por trás do "projeto Bolonha"?
"Bolonha" foi, antes de tudo, um produto da visão do mundo prevalecente na década de 1990. É preciso fazer uma viagem no tempo àquele período para se entender como as questionáveis idéias da época promoveram o desmantelamento do pilar central do sistema de ensino superior alemão.
Quanto Bill Clinton, na Casa Branca, e o "maestro" Alan Greenspan, na Reserva Federal, presidiam uma economia estadunidense em expansão, o paradigma da "nova economia" foi proclamado nos EUA. Efetivamente, na década de 1990, a economia do país atuou como indutora de inovações marcantes, como a Internet e as tecnologias de informação (TI), e o resto do mundo tinha todos os motivos para adotá-las e aperfeiçoá-las. Mas as inovações de TI na economia real eram apenas um aspecto secundário da "nova economia". O cerne do novo paradigma estadunidense era uma construção ideológica baseada na desregulamentação e privatização, precedência para o setor financeiro e a "mercantilização" da vida social e cultural, aí incluído o setor educacional.
Naquele momento, os EUA pareciam representar a "história de sucesso" final e o sucesso é sedutor. Consequentemente, a maioria das elites empresariais e políticas alemãs passou a mostrar uma devoção quase apaixonada ao novo paradigma vindo do outro lado do Atlântico. Os EUA pareciam ser "os vencedores", e deixar de copiar o paradigma estadunidense parecia ser um caminho seguro para se tornar um "perdedor".
Assim, as palavras de ordem das "teorias" gerenciais estadunidenses invadiram a Alemanha: administração baseada em valores; flexibilização; downsizing; outsourcing; benchmarking; reengenharia; competitividade por cortes de custos... ad nauseam. Essas palavras de ordem se espalhavam a partir de universidades estadunidenses (supostamente as melhores do mundo), think-tanks, fundações e empresas de consultoria, e foram avidamente consumidas pela maior parte das elites empresariais, políticas e acadêmicas alemãs. O questionamento crítico de tais slogans ideológicos era a exceção.
O resultado, em vários aspectos, foi uma "década perdida" para a Alemanha e a Europa (por onde tais idéias se espalharam ainda mais rapidamente). O desencanto veio apenas com a eclosão da crise financeira "made in USA", em 2007-08. Porém, ainda assim, esse desencanto não resultou de um questionamento crítico genuíno, mas da compreensão post festum de que a "história de sucesso" estadunidense jamais ocorreu. Pode-se dizer, antes tarde do que nunca, mas, nesse ínterim, a Alemanha perdeu uma enorme quantidade de valiosa eigensubstanz [substância única]. A presente crise do sistema universitário do país é uma triste demonstração disso.
Do Diplom ao bacharel
As reformas de Bolonha converteram o "bacharelado" no principal nível de graduação universitária, substituindo a comprovada e respeitada graduação (Diplom) com uma média de cinco anos de estudo. O propósito evidente: a maioria dos estudantes deveria deixar a universidade após três anos e apenas uma minoria permaneceria para a obtenção do grau de "mestre", em dois anos adicionais.
O currículo do bacharelado é uma sequência rígida de "módulos", cada qual com uma carga horária pré-estabelecida e finalizando com um teste escrito, no qual os estudantes obtêm "créditos". Assim, o ensino universitário passou a seguir precisamente o princípio "just-in-time" das teorias gerenciais estadunidenses. Os estudantes não têm qualquer margem para desvio, seja de tempo ou de energia intelectual. Nem o tempo, nem a energia, podem ser "desperdiçados" com a curiosidade intelectual, interesses científicos pessoais ou pensamento independente. Estas características essenciais do pensamento científico são vistas como dispersões ou fricções, que prejudicam a "eficiência" do processo universitário. A falta de "energia livre" para o estudante foi também assegurada pela introdução da cobrança pelo ensino superior, como parte dos acordos de Bolonha, embora em níveis bem inferiores aos dos EUA.
A comunidade empresarial alemã foi a mais ativa defensora das reformas de Bolonha. Nos termos de custo/benefício do regime da "globalização", parecia lógico encurtar a duração do estudo, ao mesmo tempo em que se aumentava a produção de estudantes com "qualificações pró-negócios". Os custos de treinamento de jovens profissionais nas empresas seriam reduzidos com a sua "socialização", enquanto os gastos públicos com a educação superior - por sua vez, aumentados -, tinham que ser limitados.
Porém, a comunidade empresarial teve uma surpresa desagradável. O bacharel "eficiente" e "econômico" se mostrou ser grandemente disfuncional diante dos requisitos da economia alemã. Como observou recentemente o Frankfurter Allgemeine Zeitung (24/11/2009), os estudantes com grau de bacharelado "não são bem-vindos" nas empresas alemãs.
Nos últimos meses, o FAZ lançou uma impressionante campanha contra as reformas de Bolonha, exigindo que elas sejam abolidas, e não apenas modificadas. O jornal mais influente do país coloca os argumentos corretos, em termos da educação científica como tal, mas a sua campanha contra "Bolonha", certamente, está ligada à sua proximidade com a comunidade empresarial.
A competência para gerar inovação
O que está por trás da reviravolta da comunidade empresarial alemã? A Alemanha é uma "sociedade de conhecimento" e o conhecimento é a força produtiva mais importante na economia de um país que quase não dispõe de recursos naturais. Entretanto, quando o conhecimento é reduzido ao conhecimento existente, surge um problema. A economia alemã necessita de conhecimento que produza inovações - produtos e serviços que vão além do "estado da arte". A disponibilidade de uma força de trabalho dotada apenas do conhecimento existente não cria um ambiente intelectual favorável às inovações, é preciso algo mais.
Para continuar inovadora e competitiva, a economia alemã necessita de estudantes com uma educação universitária genuína. Isto significa que os estudantes devem saber mais do que o corpo de conhecimento existente em seus respectivos campos científicos. Eles devem desenvolver uma compreensão dos limites do conhecimento existente, um sentido para as questões não resolvidas em suas áreas. Em suma, devem se envolver em atividades de pesquisa, mesmo que em pequena escala.
Mas o estudante do bacharelado é mantido fora das pesquisas e tem negada a oportunidade de desenvolver a curiosidade intelectual, os interesses científicos e o pensamento independente. Se o estudante se limitar à absorção do conhecimento existente, as suas visão cognitiva de longo alcance e abrangência interdisciplinar não podem se desenvolver. Tais capacidades constituem a essência do conhecimento científico e são indispensáveis para o desenvolvimento de capacidades tecnológicas interativas e competência de liderança e administrativa na economia.
Nas condições de uma economia "globalizada" no século XXI, essas capacidades são mais urgentemente necessárias do que nunca. Por isso, o sistema universitário de Humboldt, baseado na unidade do ensino e da pesquisa, não é "superado" nem um "luxo", mas uma premente necessidade para a economia alemã.
Por outro lado, o impacto negativo das reformas de Bolonha não se limita às qualificações dos estudantes. Os professores foram igualmente afetados em sua capacidade de fazer pesquisas. As reformas introduziram um "controle de qualidade" na pesquisa universitária, que passou a ser avaliada por procedimentos "objetivos" baseados em ranqueamentos. Os pesquisadores devem se "avaliar" entre si, em procedimentos burocráticos que pioraram ainda mais o já consideravelmente longo tempo consumido em tais requisitos. Ainda pior, 20-30% dos projetos de pesquisa devem ser financiados pelos chamados "fundos de terceiros" - instituições públicas ou privadas alheias às universidades. Os pesquisadores devem "vender" os seus projetos a esses "terceiros", por meio de propostas que consomem bastante tempo para a sua elaboração. O resultado é mais burocracia em nome da "eficiência" - em detrimento da qualidade das pesquisas.
Desse modo, as reformas prejudicaram seriamente a pesquisa universitária. Para a competitividade científico-tecnológica da economia alemã, não basta uma estreita capa superior de pesquisa "de ponta". Em vez disto, a Alemanha depende da existência de uma ampla base de pesquisas em suas universidades, a partir da qual possa emergir organicamente a pesquisa de alto nível. A divisão do sistema universitário alemão em umas poucas instituições de excelência, intensivas em pesquisas, e "o resto" de entidades de massa, está prejudicando a preservação de uma capacidade suficiente e sustentável para gerar inovações.
E o sistema universitário dos EUA?
Nos EUA, existem cerca de 4 mil instituições de ensino superior. Destas, cerca de metade são community colleges com currículos de dois anos, que correspondem a uma combinação do ginásio e escola técnica europeus. O restante são colégios com currículos de quatro anos, a maioria equivalente às escolas técnicas alemãs, com taxas anuais da ordem de 10 mil dólares. Os estudantes que não provêm de famílias ricas devem recorrer ao crédito educativo para financiar os 40-50 mil dólares que custam os seus cursos universitários.
Nos EUA, existem apenas 150 instituições de ensino superior comparáveis às 104 universidades ou instituições superiores equivalentes alemãs. Cerca de 50 delas têm status de "elite", com condições de primeira classe para estudantes e professores - a um custo anual da ordem de 30-50 mil dólares. E não se deve esquecer que uma parte significativa do corpo docente dessas universidades é "importada" de fora do país.
E o sistema de ensino superior estadunidense tem falhado consistentemente em proporcionar a brain power necessária à economia nacional. Nas últimas décadas, a economia dos EUA tem dependido em grande medida de um suprimento de cientistas e engenheiros estrangeiros, em especial, indianos, russos e alemães. Se os sistemas universitários destes países fossem "inferiores" ao estadunidense, os pós-graduandos deles oriundos dificilmente conseguiriam ser aceitos no país (e é claro que a sua educação já foi paga pelos contribuintes dos seus países). Assim, tomar como modelo para a Alemanha o sistema estadunidense é, para dizer o mínimo, ridículo.
Em 24 de novembro, um editorial do FAZ foi intitulado "A bolha de Bolonha estourou". O texto dizia: "Não é acidental que a bolha de Bolonha tenha estourado logo após a bolha financeira. Em ambos os sistemas, os atores responsáveis perderam qualquer conexão com a realidade."
A Alemanha não precisa de um novo "modelo": basta, simplesmente, remover as reformas cancerosas de Bolonha do que resta do corpo vivo do sistema universitário de Humboldt - efetivamente, de volta para o futuro.
                                                                     | Paypal (seguro y permite diferentes formas de pago) | |
| Microdonación de 2 euros | Donación de importe libre |