Há 60 anos, em Janeiro de 1949, o Exército Vermelho tomou Pequim. Meses depois, a 1 de Outubro, a Assembleia Popular proclamou a fundação da República Popular da China. Conduzida pelo Partido Comunista da China e Mao Tsé Tung, triunfava a maior e mais radical revolução camponesa da história da humanidade. Milhões de camponeses pobres, atrasados e analfabetos tinham conseguido o impensável derrotando os senhores feudais, a sua burguesia nacional “revolucionária” (apoiada pelos EUA) e o imperialismo japonês. E, à sua maneira, lançavam-se na construção de uma sociedade socialista.
SOB A INFLUÊNCIA DA IC
Criado em 1921, na sequência da revolução burguesa antifeudal de 1911 que pôs fim à monarquia, o Partido Comunista da China rapidamente se implantou e ganhou influência junto dos trabalhadores e nas regiões industriais. Em 1924, de acordo as directivas da III Internacional Comunista relativas à frente única operária, o partido colabora com o Kuomitang, o partido nacionalista burguês, preservando a sua autonomia e independência organizativa, política e militar. Unidos na acção, PCC e Kuomitang lutam com êxito contra os senhores feudais que, afastados do poder, resistem encarniçadamente um pouco por toda a China. No ano seguinte, esta orientação sofre uma inflexão à direita: os comunistas integram-se no Kuomitang e abdicam de disputar a condução da revolução democrática à sua burguesia “revolucionária”.
Esta deriva direitista era inspirada por Bukarine que, à frente da IC e perante o bloqueio das revoluções comunistas na Europa, teorizava sobre a estabilização do capitalismo que – dizia – havia entrado numa nova fase, caracterizada por profundas mudanças estruturais, em que a anarquia da produção tendia a desaparecer por força da concentração monopolista dos capitais. Com ela emergiria um novo capitalismo, colectivista, planificado, racional, pondo fim à irracionalidade do sistema e à anarquia da produção, pelo que a contradição entre o capital e o trabalho perderia importância, saltando para primeiro plano a que opunha as metrópoles imperiais às colónias e aos países dependentes.
Ainda segundo Bukarine, os elos fracos do capitalismo deslocavam-se para o Terceiro Mundo, as revoluções perdiam o cunho comunista e passavam a democráticas e anti-imperialistas, o que colocava a questão essencial de saber o que deviam então fazer os comunistas neste novo quadro nos países coloniais, feudais e pré-capitalistas: continuar a disputar às burguesias nacionais a condução das revoluções nacionais e anti-imperialistas, tentando, como na Rússia, fazê-las evoluírem de burguesas para operárias e camponesas; ou desistir disso sob o pretexto de que, estando em curso revoluções burguesas, devia ser essa classe a concretizar as suas revoluções?
De acordo com este último ponto de vista, a IC irá desenvolver uma campanha contra os velhos hábitos “sectários” de diferenciação dos interesses de classe e a favor do estabelecimento de alianças com as burguesias nacionais, tidas agora como “revolucionárias”.
A aplicação desta orientação na China vai traduzir-se num desastre. Não só implicou uma feroz luta dentro do Partido Comunista Chinês para vencer os “esquerdistas”, como quase levou à sua destruição quando, em Abril de 1927, o Kuomitang rompe a aliança com os comunistas e ordena a liquidação destes e das organizações operárias. Perante esta situação a IC lança sucessivos apelos à suposta ala esquerda do Kuomitang. Como estes não produzem qualquer resultado, o Partido Comunista faz uma guinada à esquerda e lança-se numa série de acções aventureiras, insurreccionais, nas cidades, no Outono desse ano. Em Xangai, os operários amotinados chegam a proclamar a comuna, mas são massacrados. E por toda a China os comunistas são perseguidos e massacrados às dezenas de milhares.
Mão decide então romper com as orientações da IC e de Bukarine, que se vê desacreditado e inicia aqui o seu declínio trágico, tanto à frente da III Internacional como do Partido Comunista da União Soviética.
A GUERRA POPULAR PROLONGADA
Feita a ruptura, o Partido Comunista da China abandona as cidades e, sob a orientação de Mao, decide apostar tudo na consciencialização e mobilização dos milhões de camponeses pobres que sobrevivem na China em inimagináveis condições de servidão e escravatura.
A genialidade de Mao Tsé Tung foi ter-se apercebido do potencial revolucionário dessa enorme massa de camponeses e teorizado e desenvolvido a forma de luta insurreccional capaz de tornar vitoriosa uma revolução em que eles seriam os protagonistas. Rompendo com as ideias dominantes na IC, Mao proclama que se vive a época da revolução socialista mundial, pelo que é possível uma insurreição tendo como força principal os camponeses sob a direcção de um partido do proletariado. Consequente com esta ideia, começa a desenvolver e a pôr em prática os fundamentos da guerra popular prolongada e do cerco das cidades pelo campo, princípios que serão adoptados com êxito pelos movimentos e guerrilhas de libertação nacional anticoloniais e anti-imperialistas do Terceiro Mundo.
Inicia-se então um trabalho paciente de propaganda, tendo em vista não só criar um exército revolucionário constituído por camponeses pobres que, para além de combater, tem antes de mais como tarefa principal fazer o trabalho de propaganda, agitação e organização política.
Em 1934 o Kuomitang lança uma ofensiva em larga escala para liquidar de forma definitiva o PCC e as suas bases. Contra os que no Comité Central defendem que as bases do exército revolucionário deveriam constituir os embriões do Estado a criar e, como tal, ser defendidas, Mao responde que fazê-lo levaria ao aniquilamento. E contrapõe a ideia táctica da mobilidade permanente – evitar os confrontos estratégicos e os combates decisivos, desgastando assim o inimigo política e economicamente e desmoralizando-o. Em vez de grande efectivos de combate, advoga a utilização de pequenos grupos de guerrilha, cuja arma principal é a mobilidade.
Empreende então uma penosa e lendária retirada de mais de 10 mil quilómetros, a Longa Marcha. Durante um ano, os comunistas e o seu exército de camponeses deslocam-se a pé para norte, em condições extremamente difíceis, constantemente perseguidos pelo exército nacionalista, e estabelecem-se em Yenan, escapando ao extermínio. Aí, o partido reorganiza-se, o exército popular alarga-se e criam-se comunas populares que ensaiam formas colectivas de produção agrícola e de indústria artesanal – aprendendo a só “contar com as próprias forças”.
Em 1936 o Japão invade a China, cometendo as maiores atrocidades. O Partido Comunista propõe ao Kuomitang uma frente contra os invasores, que redunda em novo fracasso. A luta é então em duas frentes – contra o Japão e contra o Kuomitang. Em 1945, a Segunda Guerra aproxima-se do fim e o Japão capitula. Os comunistas controlam o Norte e o Centro da China e prosseguem a guerra contra o Kuomitang, assente numa complexa aliança hegemonizada pelos camponeses pobres, aliança que se prolongará para lá da tomada do poder e será teorizada por Mao como a base social do poder da China revolucionária, a Democracia Nova.
À medida que vai libertando o país, o Exército Vermelho realiza a reforma agrária, distribuindo terras aos camponeses pobres, libertando-os da servidão e da escravatura, castigando os agrários ricos, etc., com o que conquista o apoio de cada vez mais camponeses. A partir de 1947, os proprietários rurais começam a ser expropriados sem qualquer indemnização. Cercado nas cidades, o Kuomitang enfrenta a oposição crescente da intelectualidade e dos trabalhadores. Dois anos depois capitula, apesar do apoio dos Estados Unidos.
DEMOCRACIA POPULAR EM VEZ DE SOVIETES
Tomado o poder, o Partido Comunista chinês irá debater-se com os mesmos problemas com que se havia confrontado a Revolução de Outubro, e de uma forma ainda mais aguda, dado ser a China um país onde o modo de produção capitalista era incipiente e maior o peso do campesinato – como avançar para o socialismo num país atrasado, feudal e pré-capitalista? Industrializar e colectivizar à força, como fizera Estaline, ou chamar as classes burguesas a participar nessa construção através de uma espécie de NEP, como havia defendido Bukarine e outros para a URSS?
Sob a direcção de Mao, a Democracia Nova irá optar por esta segunda via. Em vez do socialismo tentado na União Soviética, assente na aliança do operariado com os camponeses pobres, na China o poder terá a forma de uma democracia popular sustentada na aliança entre os camponeses pobres, a pequena burguesia, a burguesia nacional patriótica e o operariado. Ao contrário da URSS, o motor da construção “socialista” na China irá assentar nas comunas populares, essencialmente agrícolas, e não na grande indústria pesada. Em vez de um aparelho de Estado fortemente centralizado e sem propriedade privada, haverá alguma pluralidade de opiniões, decorrente do tipo de aliança em que assenta o poder revolucionário, ou seja, na colaboração das classes burguesas, da pequena produção e comércio privado, e também nalguma propriedade privada.
O GRANDE SALTO EM FRENTE
Em 1956, menos de 10 anos depois de tomado o poder, a agricultura está totalmente colectivizada, tal como os serviços mais importantes. Dois terços da indústria são de origem cooperativa ou estatal, sendo a restante mista e alguma privada. Com a Democracia Nova, Mao tinha conseguido colectivizar os campos sem os custos humanos e a repressão ocorrida na URSS. Mas isso teve um custo: o controlo do poder pelos trabalhadores e a ditadura do proletariado nada mais eram que propaganda; em vez de sovietes operários, havia uma conflituosa partilha do poder com sectores burgueses que sustentavam a Democracia Popular e que pendia cada vez mais para o lado da burguesia, reforçada com a “recuperação” da generalidade dos técnicos, funcionários, oficiais, intelectuais, administradores e patrões que tinham servido o Kuomitang. Para que a economia funcionasse, as empresas foram entregues aos capitalistas nacionalistas expropriados, com indemnizações e direito a participação nos lucros. Por outra via, a China revolucionária afundava-se no pântano em que tinha mergulhado a revolução soviética e a burocracia florescia, ameaçando constituir-se como uma nova burguesia.
O Grande Salto em Frente, assente nas comunas populares camponesas, pretendeu ser uma resposta a esta degradação da “construção socialista” na China. Com ele, Mao pretendia atacar ideia de que era obrigatório fazer concessões às classes burguesas e aos técnicos, provar que era possível avançar para o socialismo sem incentivos materiais, sem indústria pesada e sem liberdade de mercado. A tentativa revelou-se um desastre: a produção indústrial e agrícola caíram, sobreveio a fome. Mao foi fortemente criticado, viu o seu prestígio abalado e viu-se obrigado a ceder posições à ala direita do partido. A partir daqui, a revolução começou a esmorecer.
A Revolução Cultural será o último estremecimento de uma revolução camponesa-operária radical, como nunca tinha acontecido nem voltou a acontecer, e que sonhou avançar para o socialismo. Por se ter realizado num país onde o capitalismo quase não existia, onde o proletariado era uma parte ínfima da população, avançar para o socialismo era impossível. Por isso ela ficou-se por aquilo que era objectiva e historicamente possível – uma revolução antifeudal e anti-imperialista que arrancou a China do atraso de séculos, modernizou-a, criou a sua própria burguesia e catapultou-a para o capitalismo pleno.
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