Buscar  
O regresso de Keynes ou talvez não
A superstição de que a “boa sociedade” se baseia no livre jogo dos mercados entrou em crise. A burguesia nunca se carac­terizou pelo fana­tismo ideo­lógico - o liberalis­mo não é para leva­r a sério.
Ângelo Novo | Para Kaos en la Red | 18-12-2009 a las 17:00 | 1400 lecturas
www.kaosenlared.net/noticia/regresso-keynes-ou-talvez-no
Compartir: Publicar en Facebook Publicar en Twitter Publicar en Meneame Publicar en Google Buzz Publicar en Technorati Publicar en Delicious Publicar en AlternativeWeb

Desde que foi oficial­mente aberta a presente crise glo­bal do sistema capitalista – com o colapso do em­ble­mático “banco de investi­mento” Lehman Brothers a 15 de Setembro de 2008 – têm-se ouvido vozes, en­tre o avisado e o nostálgico, es­tabelecendo compara­ções com a grande crise de 1929 e propondo aproxi­mada­mente as mesmas receitas. Até aí os ideólogos bur­gue­ses viviam e actuavam em mo­do de negação, a partir daí pas­saram ao modo de cu­randeiros pressuro­sos, re­petin­do-se à saciedade o dito de Nixon que “ago­ra so­mos todos keynesianos”.

É claro que a superstição de que a “boa sociedade” é aquela que baseia integral­mente o seu funcionamento no livre jogo dos mercados auto-regulados (de “con­corrência não falseada”) le­vou uma grande tareia. Mas a burguesia nunca se carac­terizou pelo seu fana­tismo ideo­lógico e o liberalis­mo nunca foi coisa para ser leva­da inteiramente a sério. Ela sempre gostou mais da in­­tervenção do Estado (que é aliás o seu) do que esteve dis­posta a admitir. A ques­­tão foi sempre e apenas onde e como ela quer que o Estado intervenha na economia: por exemplo no aparato de repressão social e nas enco­mendas mili­tares. Foi só para combater as intervenções espúrias do “despesismo” social que ela agitava o espan­­talho ideológico (neo)liberal.

Barack Obama venceu facilmente as eleições presi­denciais norte-americanas, a 4 de Novembro seguinte, envolto na aura de que seria um novo F. D. Roosevelt, ainda que pós-modernamente mestiço. Vinha aí segu­ra­mente a caminho um novo New Deal, sendo severa­mente reprimidos os excessos da finança desregulada (a “eu­tanásia do rentista” preconizada pelo mestre de Cam­bridge), criado um gigantesco programa de des­pesas pú­blicas na área social e de reabilitação de infra­estruturas colectivas, abertos caminhos de participação e iniciativa popular na vida económica do país.

E essa seria apenas a primeira etapa, pois que, se­guindo a liderança norte-americana, todo o mundo en­­traria de seguida numa nova era ideológica em que se­­riam reabilitados os valores tradicionais da social-‑demo­cracia e do reformismo social. A “governança” global seria democratizada e desmilitarizada. Um “no­vo plano Marshall” seria devotado a combater a pobre­za extre­ma no Terceiro Mundo, à reconversão para as energias limpas e a fazer participar todo o pla­neta num renovado projecto de globalização, resga­tado à malé­vola hege­monia do neo-liberalismo.

Barack Obama, se verdadeiramente o quisesse, ou pudesse, tinha até material humano à sua disposição para sinalizar a abertura de um caminho semelhante, a co­meçar pelos nobelizados Joseph Stiglitz e Paul Krug­man, mais o recentemente reconvertido Jeffrey Sachs. Podia ter formado uma “equipa de sonho” no campo eco­nómico, teoricamente consistente, e caval­gado com ela uma onda de moderada e pacífica mobi­lização po­pular no seu país, de benévola expectativa no exterior, recolhendo por fim o aplauso de tão notá­veis globo-‑humanitaristas como George Soros, Bill Gates, do gru­po dos “velhos estadistas” Kofi Annan, Jimmy Car­ter, Mary Robinson, Martti Ahtisaari, Nelson Mandela, Gro Brundtland ou até o dos nossos muito próprios António Guterres e Mário Soares.

Na verdade, nada disso se passou assim. Obama de­­­ci­diu constituir toda a sua administração com os mes­­­mos velhos escroques clintonianos e habilidosos da Wall Street, largamente responsáveis pelo caos plu­to­crático instalado, sinalizando mesmo uma abertura bi-partidária de “consenso nacional” à direita republi­cana mais reaccionária. Quanto à política externa norte-‑americana actual, ela é, de facto, para além da retórica, muito mais consistente e eficazmente agressiva do que a do seu predecessor. O orçamento militar é o mais ele­­vado de sempre, há uma enorme escalada em curso na guerra do Afeganistão-Paquistão (Af-Pak War) e toda a América Latina está, pela primeira vez nesta úl­­ti­ma década, a sofrer uma ofensiva em larga escala, di­plomática, militar e de acções secretas, de reapossa­mento e afirmação de domínio yankee.

A verdade é que, nem a história se repete (a não ser, por vezes, como farsa), nem o New Deal ou o Pla­­no Marshall foram nada que se pareça com os gran­des empreendimentos de engenharia e generosidade social que nos querem hoje retratar. A verdade é que o com­promisso e a aliança de classes típicos do projecto social-democrata não são globalizáveis. Por um lado, porque se formaram apenas numa conjuntura his­tórica mui­to particular – em resposta ao desafio glo­bal colo­cado pela União Soviética – como aparato institucio­nalizado de apaziguamento social interno e como arma de arremesso ideológica na “guerra fria”. Por outro lado, porque esses mesmos compromisso e aliança de classes só foram possíveis nos países impe­rialistas, com base na redistribuição parcial de réditos e super-lucros provindos da troca desigual e da explo­ração colonial ou neo-colonial. Não é um projecto que possa ser trans­posto e generalizado no plano mun­dial.

A verdade ainda, final­mente, é que, no capitalismo con­temporâneo, não há qualquer margem que possibi­lite a intervenção de polí­ticas redistributivas, de in­ves­timento público e de “ple­no emprego”. Bem po­de­mos, pois, continuar a vaguear em círculo à espera de Keynes, esse novo Go­dot no teatro do absurdo em que se tornou o discurso político e ideológico dos nos­­sos tempos.

Para esclarecer melhor o problema, será porventura útil recordar que o capitalis­mo é um modo de produ­ção que se alimenta e repro­duz por intermédio da apro­­­priação da mais-valia criada pelo trabalho humano vivo assalariado. Mais-valia essa que tem poste­riormen­te de ser realizada no mercado, por intermé­dio da tro­­ca pelo seu valor no equivalente geral dinheiro. É pre­­ciso que o capitalista extraia mais-valia dos seus tra­balhadores e é depois preciso que a realize pela venda do produto a um pú­blico solvente. E são esses os dois pólos simétricos de preo­cupação para os gestores pú­blicos da economia capitalista, alternando políticas “do lado da oferta”, com políticas “do lado da procu­ra”. Para os liberais mais ortodoxos, são boas e sempre le­gítimas todas as intervenções do Estado para dinami­zar a “oferta” (p. ex. subsídios aos capitalistas, contrac­ção dos salários di­rectos e indirectos, repressão da or­ga­nização sindical), enquanto as intervenções para reani­mar a “procura” são, quanto muito, uma maçada e um inconveniente que se torna por vezes necessário. É preciso puxar con­tinuamente o cobertor para tapar um lado e o outro da mesma cama, o que não é nada có­­modo, como o sabe quem quer que tenha feito a ex­­periência, sobretudo quando há entre as pessoas em causa uma inimizade insanável e a cama se vai tornando cada vez maior, sem que o tamanho do cobertor acom­panhe minima­mente esse crescimento.

Sucede que, por todo o mundo capitalista mais de­­sen­volvido, a elevação constante da composição or­gânica do capital, fez aumentar a proporção de capital constante (o que adquire máquinas, equipamentos e ma­térias primas) em relação ao capital variável (adquire a força de trabalho viva). Uma vez que só este último re­­gista um acréscimo, ao final de cada ciclo produtivo, mes­mo aumentando-se enormemente a produtividade do trabalho e a taxa de exploração, a sua dimensão re­­­la­­tiva cada vez mais reduzida, no seio da massa total do capital, faz com que a taxa de lucro média sofra uma tendência inexorável para a baixa, apesar da inter­venção pontual de diversas contra-tendências. Marx cu­nhou todos estes conceitos e descobriu estes mecanis­mos da mais elevada abstracção há mais de cento e cin­­­quenta anos, foi censurado por isso, inclusivamente por “economistas” que se diziam seus discípulos, mas tudo isto tem vindo a ser vindicado e a ganhar suporte nas mais recentes pesquisas empíricas, por académicos como Fred Moseley ou Anwar Sheikh.

Por fim, a redução da massa salarial total, devida quer à redução dos efectivos operários, quer à baixa dos seus rendimentos reais e dos das outras camadas assa­lariadas, provoca um estrangulamento do mer­cado, dei­xando de haver procura solvente para as mercado­rias que são produzidas. Investir em novos equi­pamen­tos produtivos torna-se assim muito pou­co atractivo para o capitalista. Uma massa imensa capacidade pro­dutiva jaz inutilizada, problema que é ainda agravado pela agudização da competição inter­nacional entre os gran­des monopólios nacio­nais/regionais.

Os capitalistas tornam-se avessos à actividade pro­­dutiva, procurando refugiar-se na especulação fi­nancei­ra. Mas esta apenas lhes pode dar um con­solo tempo­rário, elevando-os ao ar, numa vertigem de sonho, com taxas de lucro estratosféricas, para logo inevitavelmente os fazer cair mais adiante, em catastróficos mergulhos na dura realidade de uma estagnação generalizada. Não é possível continuar indefinidamente a criar capital fictício, com base em promessas de lucros futuros que cer­tamente nunca virão. Pensar que, das actuais taxas de lucro anémicas do capital produtivo, se poderia re­­tirar com que dar satisfação às promessas inscritas nos títulos finan­ceiros em circulação, elevar generaliza­damente os salários e ainda sacar imposto em montante suficiente para criar um grande programa de investi­mentos pú­blicos, é sonhar com grandes castelos de nu­vens, para além de ignorar os dados mais básicos da actual­ correlação de forças na luta de classes.

Neste momento, é a China (e em parte a Índia) que desempenha o papel de “fábrica do mundo”, for­ne­cen­do ela própria o crédito com que lhe adqui­rem as mer­cadorias. Mas em breve também ela as­cenderá na escala da modernidade industrial, sofren­do a mesma ero­são na taxa de lucro. Para continuar­mos submetidos ao regime do capital, é preciso escolher, a curto ou mé­­dio prazo, uma ou um pouco de ambas as seguintes alternativas: ou uma política de genocídio deliberado para eliminar todo o “ex­cesso” populacional, ou uma des­­truição maciça e catastrófica da capacidade industrial instalada, que permita retomar o processo acumu­la­dor a um nível capitalisticamente viável e porventura também eco­logicamente mais “sustentável”.

Para sair por outra via do actual impasse histórico, então torna-se necessário quebrar o molde em que está organizada a produção, que o mesmo é dizer subverter por completo as relações de produção vi­gentes, baseadas no antagonismo de classe. Mas isso, só o pro­le­tariado politicamente organizado o poderá conseguir, expropriando os seus expropria­dores e alçando-se temporariamente à condição de classe dominante.

 
 
Más información:


Si quieres contribuir a que Kaos en la Red pueda seguir publicando artículos como este, puedes hacer tu donación en:
Paypal (seguro y permite diferentes formas de pago)
Microdonación de 2 euros
Donación de importe libre


Comentarios (0)
La inserción de comentarios en esta noticia está desactivada

Más información en Kaos en la Red
El capitalismo en bancarrota Internacional Portugal

Col-lectiu Kaos en la Red - Carrer Ramón Llull 132 Terrassa, el Vallés Occidental (Paísos Catalans)