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Reflexões sobre a Índia
A partir da minha experiência de três anos de vida na Índia, posso alinhavar algumas breves ideias.
Rui Manuel Grácio das Neves | Para Kaos en la Red | 5-3-2010 a las 18:13 | 731 lecturas
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A partir da minha experiência de três anos de vida na Índia, posso alinhavar algumas breves ideias.

1. A Índia pareceu-me todo um continente! Mais do que um só país, era como se fossem muitos países dentro de um só. Várias línguas, culturas, religiões, experiências antropológicas... Pareceu-me que as pessoas se sentem mais identificadas com a sua cidade ou aldeia, com o seu estado, inclusive, do que com uma ideia abstracta e genérica sobre o que é a ‘Índia’. Não é de estranhar. A independência do país está ainda demasiado próxima (1947) para a consolidação de um sentimento estatal. (Mas... será isto melhor ou pior?).

2. Um aspecto muito chocante para um europeu é a situação da mulher na sociedade indiana, especialmente nas aldeias e no interior. Mas também ainda nas cidades. A dependência em relação ao homem, a situação de subordinação, ainda vai demorar muitos anos até ser superada de uma maneira mais extensa, dado que tudo isto está metido profundamente no imaginário colectivo. No entanto, já se vai vendo como esta situação está a ser contestada na prática, por parte de alguns grupos mais conscientes. E acredito que crescerá no futuro.

3. A pobreza ainda continua a ser forte, mas o país é um país de capitalismo emergente. Isto mostra-nos o rosto autêntico da globalização. Os indicadores económicos globais podem mostrar um grande crescimento como país, mas as diferenças sociais e económicas concretas ainda estão muito longe de se equilibrar. Talvez a Índia expresse assim, ao vivo, a mentira deste modelo de globalização. Contudo, é visível e em aumento o crescimento e a organização dos dalits (“oprimidos”, castas inferiores.

4. A riqueza cultural da Índia é impressionante. Está-se em presença de culturas seculares e até milenárias. Porém, o sistema de castas (proibido oficialmente, mas ainda a funcionar realmente no quotidiano deste povo) não é necessariamente intrínseco a estas culturas. Podemos imaginar uma Índia pluricultural sem castas, num futuro ainda longínquo, mas sendo uma utopia num horizonte possível. Isto implica, muito fundamentalmente, resolver as marcantes diferenças económicas (e mentais) que ainda atravessam este país, como dissemos antes.

5. A Índia é chamada a desempenhar um papel estratégico no futuro da nossa humanidade, dada a sua imensa população (perto de um bilião e 200 milhões de habitantes!). Não pode ser ignorada. A Índia e a China são, juntas, por muitas razões, e entre elas as da quantidade de habitantes, dois autênticos gigantes, dos quais o imperialismo dos EUA tem realmente medo. Mas isso não quer dizer que tenham deveras uma atitude anticapitalista. Pelo contrário. Ambos podem representar uma nova versão de capitalismo emergente do “Terceiro Mundo”. Não me parece que, no caso da China, por exemplo, a situação das e dos trabalhadores seja precisamente muito edificante. Isto dá que pensar sobre este “capitalismo emergente”.

6. Também não me parece que a não-violência activa de Gandhi esteja muito em vigor na Índia contemporânea. Talvez nalguns pequenos grupos. No entanto, como prática global, acho que a Índia actual não tem muito que ver já com o legado do Mahatma Gandhi do século passado. Porém, no quotidiano, a vida dos indianos ainda continua a ser, culturalmente, mais pacífica (e ecológica!) do que a dos nossos cidadãos e cidadãs ocidentais. Menos roubos e assassinatos e mais comunicação humana. Mais contacto com a Natureza. Comida menos tóxica. Hospitalidade e capacidade para servir. Maior sabedoria de vida. Em vários aspectos, os povos do chamado ‘Terceiro Mundo’ parecem-se mais entre si do que cada um deles com a Europa e os EUA.

7. No entanto, os problemas das divisões religiosas, nomeadamente entre os hindus e os muçulmanos, ainda estão longe de estar totalmente resolvidas. Podemos dizer que são problemas usados por grupos políticos fundamentalistas, de uma e outra parte, apoiando-se em temas religiosos, mais do que outra coisa. Mas os atentados têm subido de nível e intensidade. Agora, aliás, mais internacionalizados e globalizados. Também houve alguns ataques (e mortes) de católicos/as (uma minoria na Índia) às mãos de grupos fundamentalistas hindus, ainda que em geral não haja muitos problemas “reais” entre hindus e cristãos no quotidiano. A nível de base, há muito respeito pelas diferentes tradições religiosas, seja o que for que pensemos sobre as religiões e o seu papel histórico.

E pronto! Recomendo-vos uma viagem à Índia, se puderem, para comprovar estas coisas ao vivo. Vale a pena conhecer toda aquela história milenária, que pode seguir outros caminhos, diferentes dos caminhos europeus e do seu orgulho eurocêntrico, ainda não totalmente superado... E aqui estamos para quant@s queiram o nosso apoio informativo, modesto, sobre este enorme continente chamado Índia.
 
 
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