Vindo do Uzbequistão, resolvi tentar a entrada no Afeganistão pela fronteira de Termez, oficialmente fechada aos turistas. Depois de o meu passaporte ter passado de mão em mão, até receber o ansiado carimbo de saída, pude atravessar a pé a “Ponte da Amizade”, no rio Amu Daria, por onde as tropas soviéticas entraram massivamente no Afeganistão. Curiosamente, alguns guardas da fronteira afegã ainda usam os cintos dos seus antigos inimigos, com o símbolo da foice e do martelo...
O medo sente-se antes de entrar no Afeganistão, enquanto não nos libertamos da angústia criada pelos meios de comunicação social ocidentais e pelos websites das ONGs, que parecem predizer uma morte imediata a qualquer viajante que se aventure em território afegão.
Causa por certo algum receio ver Cabul em estado de sítio. Pesem todas as vigarices, os cerberos da “comunidade internacional” saúdam o “processo eleitoral” afegão, “este importante passo para a democracia”. E se esse passo legislativo não for suficiente, as bombas de fragmentação difundirão a democracia de forma mais eficaz... Para proteger esses canalhas, os blindados da ISAF (comando da NATO) patrulham e os helicópteros do exército US sobrevoam a cidade em permanência. Assisto pasmado a essa demonstração de força militar e à sua contrapartida ainda mais surpreendente: a aparente indiferença da população local, desde há muito habituada à guerra ou à paz armada.
Também me senti pouco a vontade quando passeei pelo bairro das embaixadas (e de instituições como o Goethe Institut ou o Centre Culturel Français), que se assemelham a fortins entrincheirados. E encontrar-me no meio dos engarrafamentos, atrás dos blindados, dos 4x4 da ONU ou dos das ONGs, também me causou algum desassossego. Não se pode seguramente ignorar o perigo. Dois dias antes da minha chegada, uma bomba explodiu a 100 metros do meu hotel em Mazar-e Sharif, cidade que até é considerada “tranquila”. Cabul é atingida pelos rockets dos rebeldes quase semanalmente, as emboscadas são frequentes e as ameaças de rapto de estrangeiros bem reais. Após o pôr-do-sol, a capital, quase sem electricidade, é uma cidade morta. No sul do país (Kandahar, etc.) e em certas regiões do norte e do leste, a marioneta Karzai pouco controla...
Nesse contexto, reaprender a viajar é uma necessidade: humildade, prudência, uma atenção acrescida. Importa por exemplo afastar-se dos veículos ou dos soldados ou polícias, nomeadamente das forças estrangeiras, alvos da aversão da maioria da população local. Quer sejam de “assistência”, de “segurança” ou de “estabilização” (reconheçamos pelo menos a inegável variedade de eufemismos!), as tropas de ocupação terão que massacrar ainda muitos resistentes se pretendem “pacificar” o país.
Mas saber apostar na confiança oferece uma enorme recompensa. O forasteiro recebe quase sempre um acolhimento amistoso, uma disponibilidade infinita ou uma franca simpatia. Vivo portanto cada dia no Afeganistão como um privilégio raro, o de poder entrar em contacto – se bem que durante escasso tempo – com esta cultura forte, verificar a fraternidade local, como a de Spart, que soube pôr-me à vontade dez metros depois da fronteira; viver o ambiente de respeito de uma chaikhana, onde os homens comem, rezam e dormem sobre mesas baixas; experimentar a amizade dos jovens, como Ahmad Shah, que me convidou a participar numa partida de voleibol, ao fim da tarde, no magnífico vale de Bamiyan; observar a confusão azafamada do bazar de Cabul... Apesar da violência de um país devastado, quantos sorrisos e olhares amáveis!
Além disso, atravessar as fabulosas paisagens dos desfiladeiros do Hindu Kush, dos vales e dos desertos, provoca uma intensa emoção. O Afeganistão é um imenso museu contra o absurdo e o carácter criminoso da guerra, patentes neste país arrasado por mais de 25 anos de conflitos – uma guerra ininterrupta que agora prossegue sob a forma de uma legítima resistência armada contra a ocupação imperialista.
Os velhos tanques russos enferrujam, em parte enterrados pelas dunas, ou nas encostas do estupendo Salang Pass. Cabul é um campo de ruínas. O país está repleto de cemitérios – geralmente simples lajes plantadas no chão, entre as quais algumas bandeiras foram hasteadas.
Os dois sectores que prosperam são, como é natural, o “humanitário” e a construção civil. O primeiro é composto por uma extensa galáxia de organizações, entre as quais algumas ONGs que contribuem para a reconstrução do país, e outras que enriquecem sem escrúpulos, tirando proveito das enormes quantias em jogo. E a construção não corre o risco de ficar com falta de trabalho nas próximas décadas. Muitos trabalhadores procuram emprego nas empresas internacionais, o que lhes proporciona em geral um salário duplo. O afluxo massivo de dinheiro estrangeiro gera assim novos antagonismos de classe...
Deixo o Afeganistão pelo famoso Khyber Pass. O Paquistão já se avista. Uma placa diz “Khyber Rifles wellcome you to the Khyber Pass”. E eu que já me alegrava de deixar de ver kalachnikovs por todo o lado...
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