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Papa Doc, Baby Doc e o Tio Sam
A Ditadura dos Duvalier assassinou ao menos 30 mil haitianos,com apoio permanente dos governos dos EUA.
Jeferson Choma* | Redação-Opinião Socialista | 5-2-2010 a las 13:40 | 1148 lecturas
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Papa Doc, Baby Doc e o Tio Sam

A tragédia haitiana também serviu para acirrar o preconceito contra seu povo e sua cultura. Um exemplo que está ficando bem conhecido na internet é o vídeo do cônsul do Haiti no Brasil, Gerge Samuel Antoine, culpando a origem africana da população haitiana pela tragédia. Também há muitos outros comentários, que embora mais sutis, têm o mesmo objetivo da declaração racista do cônsul: ocultar as verdadeiras razões que levaram à catástrofe social do país.

Para entender como o Haiti tornou-se o país mais pobre do continente americano e um dos mais pobres do mundo, com níveis econômicos e sociais similares aos países mais miseráveis da África, é preciso compreender o processo de dominação colonial imposto pelos Estados Unidos ao longo do século passado.

O Haiti é considerado pelo imperialismo norte-americano a parte mais próxima de seu quintal, com direito a nomear e derrubar governos quando considera necessário. Não é casual que durante todo o século XX o imperialismo tenha promovido invasões e ocupações militares em países da região, como Guatemala, Nicarágua, Panamá, República Dominicana e o próprio Haiti, no contexto da chamada “guerras das bananas”, isto é, da expansão militar e econômica dos EUA sobre os países da América Central e Caribe. No marco dessa dominação, um sinistro nome se inscreveu na história do Haiti no século passado: o de François Duvalier.

Ditadura Duvalier

Em 1957, sob um forte discurso populista, chega à presidência François Duvalier, o famoso Papa Doc. Apoiado pelo exército, Duvalier triunfou nas eleições presidenciais haitianas com uma campanha eleitoral populista, sob uma estratégia pró-negritude, apelando para a maioria afro-haitiana. Não demoraria muito para que Duvalier iniciasse uma implacável perseguição aos seus opositores. Em 1958, firmou um pacto com o governo da República Dominicana que estabeleceu um acordo de perseguição aos opositores de ambos os governos. Neste mesmo ano, Papa Doc depurou o exército para desfazer-se de elementos que pudessem ameaçá-lo. A brutalidade e a repressão começaram a se intensificar em todo o país. Em 1959, foi criada a milícia dos Voluntários da Segurança Nacional para proteger seu poder. Seus membros passaram a ser conhecidos posteriormente como os Tonton Macoutes (bichos-papões). Essa guarda paramilitar perseguia, torturava, estuprava e assassinava os que faziam oposição ao regime, ou por qualquer outro motivo.

Desfilavam pelas ruas da capital com suas fardas bem passadas e camisas engomadas. Todos usavam óculos escuros, de preferência da marca RayBan, compondo um uniforme inconfundível, em meio às roupas simples da população. Desfilavam nas ruas em cima de pickups, armados com facões, muitas vezes atirando a esmo, e tornaram-se temidos entre o povo e até entre membros do governo.

Como não recebiam remuneração, essas milícias criavam seus próprios meios para se financiar através do crime e da extorsão. Os Tonton Macoutes deram início às famosas gangues mafiosas que atuariam no Haiti nas décadas seguintes. Para aumentar o temor da população, Duvalier, muitas vezes, utilizava-se de fatos curiosos, como determinadas práticas e símbolos do vodu, culto afro-americano amplamente difundido pelo país.

A mão amiga dos EUA

O governo norte-americano apoiou o regime de Duvalier porque sabia de sua utilidade anticomunista para enfrentar a influência da Revolução Cubana, que havia derrubado o ditador em 1959. Papa Doc tratava todos os seus inimigos como "comunistas" e imediatamente apresentou-se aos Estados Unidos, afirmando ter derrotado a ameaça vermelha em seu país. Os governos dos EUA foram generosos, enviando milhões de dólares para o país, que serviram para sustentar as forças armadas e abastecer as contas dos dirigente haitianos. Essa generosidade foi marca tanto de Democratas como de Republicanos, que governaram por mais tempo nesse período. Em 1969, Papa Doc afirmou ao jornal Herald Tribune: "Estamos contando com a ajuda externa, (...) em particular em matéria de auxílios da nova administração americana. Esperamos que Nixon tratará tão favorável a nós como fez seu antecessor Eisenhower". Richard Nixon, John Ford, Jimmy Carter e Ronald Reagan souberam atuar ao lado da ditadura, para conter o perigo de novas revoluções na América Central.

Nos anos 1960, a Constituição do país foi modificada, e Papa Doc pode ser eleito nas fraudulentas eleições de 1961. Nelas, não foi registrado nenhum voto contra o ditador. Em 1964, Duvalier se proclamou presidente vitalício e compôs um novo parlamento o­nde os deputados eram nomeados por ele mesmo.

Foi nesse mesmo período que o Haiti ficou conhecido como exportador de plasma humano. Empresas norte-americanas de plasma pagavam US$ 3 por litro de sangue que eram revendidos nos EUA por US$ 25. Há quem diga que muitos litros de sangue foram retirados de dentro das prisões, de presos políticos que estavam sendo torturados. Foi nessa época, também, que o Haiti se transformou em rota do narcotráfico entre Colômbia e EUA. Na coleção de práticas bizarras do ditador, foi criada uma taxa obrigatória à população para construir a Duvalierville, cidade de Duvalier.

Outra sinistra consequência da ditadura foi sua política para o campo, ditada pelos interesses comerciais dos EUA. Milhares de camponeses e trabalhadores rurais foram obrigados a migrar para as cidades para fugir da pobreza e da miséria. Foi assim que as favelas de Porto Príncipe incharam.

No fim de seu governo, o Haiti já era o país mais pobre das Américas, com a maior taxa de analfabetismo e mortalidade infantil. Morto em 1971, Papa Doc foi substituído por seu filho, Jean-Claude, o Baby Doc. Sem o peso político de seu pai, as coisas começaram a se complicar para Baby Doc. Na década de 1980, iniciou-se um processo de luta popular contra a ditadura “monárquica”.

Jean-Claude ampliou ainda mais a superexploração do trabalho, que beneficiou largamente as multinacionais ianques. Sem times de beisebol, o país foi o maior produtor mundial de bolas para este esporte. Cansados do regime de terror dos Duvaliers, o povo trabalhador reagiu e enfrentou o estado de sítio de Baby Doc. Em 1985, os protestos populares se intensificaram e derrubaram Baby Doc, que fugiu para a França num avião da Força Aérea norte-americana. Fugiu com uma fortuna, incluindo o castelo de 700 mil dólares que possuía no noroeste da França. Alguns anos antes, em 1980, 16 milhões de dólares simplesmente desapareceram em algumas semanas, de um empréstimo de 22 milhões enviado pelo Fundo Monetário Internacional.

Iniciou, então, uma disputa entre os militares pelo comando do Estado. Uma série de golpes se sucedeu até que, sob forte pressão popular, foi aprovada uma nova Constituição e convocadas eleições diretas para presidente, para dezembro de 1990, quando foi eleito Jean-Bertrand Aristid. Mas o país ainda sofreria mais duas invasões norte-americanas, em 1994 e em 2004, demonstrando que o Haiti estaria bem longe de deixar de ser considerado o quintal dos EUA no Caribe.

A ditadura de Papa Doc e Baby Doc levou à destruição do país. Nela, primava a especulação e a perpetuação de latifúndios e dos privilégios de uma lumpem-burguesia crioula. É sempre bom lembrar que a ditadura se manteve graças ao apoio do imperialismo, que hoje faz um jogo cínico, culpando os próprios haitianos e arrecadando esmolas para a reconstrução do país.

 
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