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O um dividiu-se em dois
O um dividiu-se em dois – origens e enquadramento internacional dos movimentos pró-chineses e albaneses nos países ocidentais e em Portugal(1960-1965), José Pacheco Pereira, Aletheia Editores.
António Barata | Para Kaos en la Red | 2-6-2009 a las 16:41 | 1160 lecturas
www.kaosenlared.net/noticia/o-um-dividiu-se-em-dois
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Pelo seu pioneirismo e rigor, a leitura deste trabalho (Junho 2008) é obrigatória para quem se interessa pelo comunismo. Ele incide sobre os primeiros anos do movimento marxista-leninista, ou seja, a sua fase revolucionária, anterior ao maoísmo, e dá uma particular e justificada atenção ao caso português (ruptura de Francisco Martins Rodrigues com o PCP e a criação da FAP e do CMLP). Não deixando de referir a vertente ideológica da dissidência comunista dos anos 60, JPP centra-se sobretudo nos aspectos políticos: a questão da guerra atómica e a rejeição pelos partidos comunistas chinês e albanês da tutela russa do movimento comunista. Certamente que estas questões estiveram no centro do conflito: não era uma questão menor saber a atitude a adoptar pelos comunistas face ao terror e à chantagem nuclear imperialista – se capitular e adoptar uma política de apaziguamento face aos EUA, de “coexistência pacífica” entre os sistemas capitalistas e socialistas; ou não temer o confronto de classes e sistemas políticos e reivindicar o direito de também ter armas nucleares para não se ficar desarmado face ao imperialismo e na dependência da protecção do “irmão” soviético. E a capitulação da URSS na crise dos mísseis de Cuba aí estava como exemplo vivo da cedência à chantagem imperialista e de traição à revolução, contra o que defendiam os próprios cubanos, a começar por Guevara.

Como JPP reconhece, a origem do conflito é anterior ao XX Congresso. Mas é muito mais profunda e anterior do que ele dá a entender ao remeter para a retirada dos técnicos soviéticos e o fim da ajuda da URSS à China. A cisão do movimento comunista nos anos 60 não foi mais que o resultado da viragem oportunista verificada em 1935 com o 7º Congresso da IC, que instituiu a unidade política da classe operária através da fusão dos partidos comunistas com os social-democratas em vez da unidade pela base em torno de lutas e reivindicações; descaracterizou os partidos comunistas que, de proletários e internacionalistas, passaram a ser patrióticos e de todo o povo; impôs as frentes populares, trocando a aliança estratégica revolucionária entre operários e camponeses pela aliança reformista com a pequena burguesia e a burguesia “progressista”; remeteu a tomada do poder pelos proletários para um futuro sempre longínquo e adiado, passando a admitir a possibilidade de se chegar ao socialismo pela via parlamentar, em nome da luta contra o fascismo e de uma ilusória viragem à esquerda da social-democracia. Os resultados dessa orientação, passados 30 anos, foram uma crise profunda – política e ideológica – no movimento comunista: os partidos comunistas, de agentes da revolução haviam-se transformado em aparelhos do sistema de dominação burguês. Os sinais dessa crise eram visíveis no mal-estar e na desconfiança crescente causada pelas sublevações nos países de Leste; no facto de estarem a acontecer revoluções (Cuba e Argélia) à revelia dos comunistas e contra a vontade e as orientações dos PC de Cuba e da França; a falta de respostas convincentes sobre os processos estalinistas, o gulag e a repressão nos países de Leste, o ambiente asfixiante que se vivia nesses países, a contínua fuga dos seus cidadãos para o Ocidente sempre que as situações o proporcionavam. E acima de tudo, o abandono pelos partidos de qualquer plano de subversão do capitalismo e de tomada do poder por métodos revolucionários.

O nascimento da corrente marxista-leninista resulta deste processo degenerativo e foi uma reacção para inverter essa deriva oportunista. Só que incipiente, nada esclarecida e, portanto, incapaz de efectuar um corte definitivo com as concepções dimitrovistas do 7º Congresso da IC que estavam na sua origem. Ou seja, reagia aos sintomas da doença, mas continuava a desconhecer a sua causa. O que explica tanto o estilo dogmático e escolástico da produção teórica de chineses e albaneses, como a esterilidade do movimento marxista-leninista, que se limitava a copiar e difundir acriticamente a propaganda dos partidos da China e da Albânia; e explicará também, mais tarde, a sua divisão numa corrente maoísta ultra-direitista e pró-imperialista, e noutra, social-democrata.

 
 
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