A história do Movimento Comunista está infestada de traidores. Conheci muitos na minha longa vida como trabalhador de fábrica. Claro está que não me refiro aos que traíram outros companheiros que por sua culpa vão parar à prisão ou ao patíbulo. Refiro-me aos que traíram a seus presumíveis ideais, pelos quais lutavam fervorosamente na juventude, para uns anos depois (alguns em muito poucos anos) se acomodarem à situação e mudar de discurso, uns dentro do Partido e outros fora.
Nunca me conformei com virar-lhes as costas e seguir a marcha com os outros companheiros, ainda mais quando os vi actuar antes e depois. Interessavam-me sobretudo os que aparentemente sentiam e viviam o que estavam a fazer. Não me dava por satisfeito com fazer como os demais: criticá-los e afastar-se deles. Eu sentia a necessidade de estudar os seus processos mentais e dizia para comigo: Têm que ter uns traços de carácter que os levam com o tempo a essa transformação e se, se os conhecermos, é possível descobrir onde vão parar antes que o façam.
Eis as conclusões a que cheguei, depois de um estudo de anos de um comunista que conheci na OPEL de Zaragoza, que militava nas CC OO. Era então (1983/93) secretário-geral da secção sindical e hoje está empoleirado na cúpula da Confederação em Madrid. Era ver os discursos incendiados que lançava aos trabalhadores nas assembleias gerais que se fizeram durante os períodos de luta pelos acordos colectivos: “Somos nós quem cria a riqueza! A fábrica é nossa!” e outros do mesmo teor. Havia muitos operários que diziam que, graças a esse homem, não nos espezinhavam mais no trabalho. Hoje, entre outras lindezas, diz do alto do púlpito da Confederação que todos, operários e empresários, têm de cerrar fileiras para sair da crise.
Entrei na OPEL com 45 anos de idade e muitas experiências às costas. Nunca me enganou. Além disso, este homem condensava em si todos os traços que já tinha observado noutros “traidores” que conheci ao longo dos anos. Podia servir-me de paradigma.
O meu diagnóstico, que pode servir seguramente para outros como ele: Um ego muito desenvolvido, uma tendência para não entabular relações com os que já estão curtidos, mas com os que crê que podem ser seus discípulos. Nunca pedem opinião a não ser com segundas intenções. Amantes dos microfones, deleitam-se a escutar-se a si mesmos e estão muito pouco atentos às reacções do seu público. Conhecem todas as frases de maior impacto dos escritos de Marx e aplicam-nas como se fossem um unguento, venha ou não ao caso. Entusiasmam-se com o que chamam “discussões ideológicas” em alguma mesa de bar, sempre com aqueles que oferecem muito pouca ou nenhuma resistência.
Isto que pintei aqui é uma espécie de arquétipo, uma composição de diversos caracteres. Como parece que o ego inicial se acentua com a idade, podem terminar, segundo as circunstâncias, em qualquer sítio. Para pôr um exemplo: alguns dos assessores de que se rodeava George W. Bush, os chamados “neocons”, tinham sido trotskistas na juventude. E como se espalhou bastante a ideia de que é tudo derivado das mudanças provocadas pela idade, que “se é comunista aos 20 e conservador aos 40” como algo natural, já têm um refúgio para aparar as críticas. A realidade é que se não se é comunista até à morte é porque nunca se o foi.
Creio que estes tipos que retratei aqui causam mais dano ao movimento comunista que legiões de inimigos declarados.
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