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O recado
Que melhor demonstração sobre quem manda no país que a reacção dos grandes tubarões da construção civil ao quinto chumbo, pelo Tribunal de Contas, de mais uma grande obra da Estradas de Portugal?
António Barata | Para Kaos en la Red | 20-12-2009 a las 18:58 | 758 lecturas
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Que melhor demonstração sobre quem de facto manda no país que a reacção dos grandes tubarões da construção civil ao quinto chumbo, pelo Tribunal de Contas, de mais uma grande obra da Estradas de Portugal?

Como das outras vezes, o parecer negativo da instância judicial fiscalizadora prende-se com algo que evidencia a existência de uma teia de interesses mafiosos – que todos sabem existir – em torno dos concursos de adjudicação das grandes obras públicas. Por exemplo, o disparar dos seus custos, cujos orçamentos, como por milagre, crescem largas dezenas de milhões entre o final do concurso e a adjudicação, voltando depois a crescer durante a execução; a já corriqueira falta de estudos sobre a pertinência da obra, os seus efeitos a prazo sobre a economia, as populações, o ambiente, etc.; a forma pouco clara como os concursos se realizam; os negócios sempre ruinosos para o Estado, etc.

Mal souberam do chumbo, os donos da Mota Engil e da Soares da Costa não perderam tempo. Vendo-se “convidados” pelas televisões a expor as suas queixas em generosos tempos de antena, sem papas na língua, com um ar agastado e a sobranceira arrogância de quem nada em milhões, disseram ao que vinham. Fartos dos chumbos do Tribunal de Contas, acusaram-no de irresponsabilidade e de estar a prejudicar a economia nacional, sem respeito pelo esforço das grandes empresas para debelar a crise, criar emprego e desenvolver o país. E da retórica passaram à substância – que iam ignorar o parecer do Tribunal de Contas e continuar com as obras iniciadas sem que para isso estivessem autorizados. E, no caso improvável de o governo se lembrar de as parar, ou de estas não avançarem de acordo com os interesses das empresas, exigiriam pesadas compensações, tanto para se ressarcirem dos investimentos feitos, como dos lucros esperados.

Ou seja, com obra ou sem obra, ganham sempre. E por fim a chantagem – se o governo recuar e não ignorar os pareceres do Tribunal de Contas, lançarão para o desemprego mais uns milhares de trabalhadores.

Governo e oposição (mas não são todos os mesmos?) entenderam a mensagem, “desdramatizaram” e lá continuaram a entreter-se com algo muito mais picante – que teria passado pela cabeça do ministro Vieira da Silva para se pôr a dizer que Sócrates foi vítima de espionagem política? – o que, como todos sabem, é de uma inqualificável gravidade, falta de sentido de Estado e irresponsabilidade política.

Que eles, sempre tão ciosos da autoridade do Estado, invocando-a sempre que os explorados violam a sua ordem e legalidade, tenham ouvido e calado diz tudo sobre o que há a saber relativamente a quem de facto dá ordens neste país.

Que esta terra de dótores se tenha transformado numa república das bananas é coisa que convém aos seus interesses e na verdade há muito deixou de preocupar os ricos e poderosos.

 
 
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