[Traducción al castellano]São conhecidas de todos as razões que fizeram com que na Grécia o assassinato de um jovem pela polícia despoletasse uma onda de violentos e massivos protestos anticapitalistas, ao ponto de colocarem o aparelho repressivo na defensiva e provocarem a demissão de alguns ministros.
Interessa dirigir a atenção para certos aspectos de que a grande imprensa não trata, mas são de grande importância para a definição de uma linha de actuação revolucionária:
1 – Aquilo que a revolta grega prova é que a instabilidade social e política, as lutas radicais e as greves massivas só são prejudiciais para a burguesia, não para os explorados. A Grécia, que aderiu à União Europeia ao mesmo tempo que Portugal, apresentava na altura da adesão indicadores de distribuição de riqueza, de desenvolvimento económico e social inferiores aos do nosso país. Há já vários anos que essa situação se inverteu. Por exemplo, os jovens precários que animaram os protestos são lá a geração dos 700 euros. Cá ficamo-nos pelos 500. E, no entanto, a Grécia é dos países europeus aquele onde a conflitualidade social é maior. Todos os anos acontecem três, quatro greves gerais massivas e extremamente combativas e são frequentes as manifestações de solidariedade internacionalista, marcadamente anti-imperialistas e anticapitalistas. A repressão policial é brutal, mas não intimida os manifestantes, que têm hábitos de autodefesa;
2 – Mais uma vez se confirma que, em momentos de aguda luta social, o campo revolucionário, minoritário em tempos de normalidade burguesa, engrossa rapidamente quando a situação se inverte e estalam crises sociais. Verifica-se então a deslocação para a esquerda de largos sectores de trabalhadores e de populares, apoiantes ou organizados em partidos e sindicatos reformistas, que se radicalizam e aderem aos pontos de vista políticos, ideológicos e práticos dos revolucionários.
Na Grécia, nos momentos mais agudos dos protestos, viram-se obrigados a vir também para a rua os partidos reformistas (social-democrata, comunista e uma coligação do tipo BE) e as centrais sindicais, quando já alguns sindicatos lhes tinham começado a escapar ao controlo. E, quando começaram os confrontos, foram aos milhares aqueles que se juntavam aos blocos revolucionários, desobedecendo às directivas dos reformistas;
3 – Muitos no nosso país interrogam-se porque é que, tendo a Grécia sensivelmente a mesma população de Portugal, tendo os dois países suportado largos anos ditaduras fascistas e tendo problemas laborais e sociais tão semelhantes (nem sequer faltam os assassinatos de jovens pela polícia), cá os protestos não adquirem expressão radical semelhante. A diferença está na existência, na Grécia, de um largo sector revolucionário e anticapitalista, com implantação e capacidade de intervenção, ainda que minoritário e pulverizado num sem-número de organizações. Lá o reformismo não é avassalador, como no nosso país. E isso faz toda a diferença.
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