Composta por uma complexa sociedade multiétnica, multirreligiosa e multicultural, a Nigéria é uma república federal dividida em seis zonas geopolíticas com cerca de 370 grupos étnicos, tem grandes reservas de petróleo e gás, além de muitos recursos minerais, assim como uma população das maiores de África, 130 milhões (um quinto de toda a população do continente). Destes, 60 milhões têm menos de 18 anos, o que lhe assegura recursos humanos com grande potencial de crescimento e desenvolvimento – razão por que lhe chamam “o gigante adormecido”.
Contraditoriamente, mais de 70% dos nigerianos vivem em pobre-za absoluta, com especial incidência nas mulheres, as mais numerosas entre os marginalizados.
Pode-se dizer que esta persistência da pobreza num país tão rico se deve à má gestão de recursos, à falta de participação popular e, acima de tudo, à impunidade e falta de transparência financeira de uma sequência de governos centrais que durante quarenta anos foram ditaduras sangrentas e criaram a todos os níveis do poder as suas redes de corrupção e despotismo, como o atestam os últimos índices publicados pela Transparency International, que classificam a Nigéria entre os três países mais corruptos.
As últimas eleições realizadas em Abril de 2007 apenas confirmaram a já longa tradição de fraude eleitoral inaugurada pela própria administração colonial inglesa que, na passagem para a independência, entregou por este processo o poder aos sectores mais reaccionários do novel país. Nesta história terrível e dramática se pode encontrar a base essencial da exclusão de largos segmentos da população, arredada de todas as instituições e tomadas de decisão.
No índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a Nigéria ocupa a 158ª posição, entre os 177 incluídos nos dados fornecidos pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O PIB per capita é de 1.154 USD, relativamente alto mas muito desequilibrado em favor dos mais ricos, e o indicador relativo ao nível educativo é médio em relação aos outros países africanos. A esperança de vida ao nascimento, 43,4 anos, coloca a Nigéria entre os países mais penalizados pela mortalidade materno-infantil; a sua taxa de mortalidade materna é das mais altas do mundo e tem vindo a aumentar.
PETRÓLEO A SAQUE
Apesar de tudo, a Nigéria é a segunda potência económica do continente africano, depois da África do Sul. A descoberta do petróleo no delta do Níger, em 1958, ano da independência, implicou o desaparecimento de terras cultiváveis. O derrame de produtos tóxicos inutilizou um quarto dos terrenos férteis e a maior parte dos 23 sistemas fluviais e mangais do delta, sendo a região um dos maiores contribuintes para o efeito de estufa, causa do aquecimento do planeta. Além disso, dispararam as doenças respiratórias e certos tipos de cancro. Este desastre ecológico deu cabo do modo de vida dos povos desta região; enquanto antes era auto-suficiente, hoje a Nigéria importa a maior parte dos alimentos. Aumentou o desemprego, deu-  -se o êxodo para as cidades e para o estrangeiro e não se vê que o governo ou as instâncias internacionais tencionem melhorar a situação. É esta catástrofe que explica o actual recurso às armas de sectores mais desesperados da população do delta do Níger, que, com razão, vêem nas grandes petrolíferas ali presentes (Shell, ExxonMobil, Chevron e AGIP) a causa da sua desgraça. São elas que levam da região a parte principal dos lucros do gás e do petróleo.
Ken Saro Wiwa, activista e membro do povo ogoni mandado enforcar por um dos ditadores nos anos 90 juntamente com oito companheiros da mesma causa, denunciou o genocídio e a destruição, mas os poderosos e o resto do mundo fizeram orelhas moucas, porque o petróleo fala mais alto. Aliás, dos 60 milhões de dólares que a Shell diz ter destinado à implementação de projectos de desenvolvimento em 2000, mais de 33 destinaram-se à construção de estradas que serviam as suas explorações.
Sendo a Nigéria o primeiro exportador de crude de África, não escapa ao interesse das grandes potências. O vice-presidente norte-americano Richard Cheney afirmou em 2004 que “o petróleo africano, pela sua alta qualidade, representa um mercado em crescimento para as refinarias da costa Leste”. Além disso, o petróleo do golfo da Guiné demora duas semanas a chegar aos EUA, enquanto o petróleo do Golfo demora 6 semanas. Daí as pressões para que este país abandone a OPEP e aumente a produção de hidrocarbonetos.
No Verão de 2007, o embaixador norte-americano em Abuja declarou que o fundamentalismo islâmico está presente na Nigéria e constitui uma grave ameaça. Daqui até à intervenção militar vai um passo, sobretudo se tivermos em conta a concorrência com uma grande potência como a China, que importa quase 25% do petróleo que consome do continente africano e deu o seu apoio à Nigéria e à África do Sul para ocuparem um lugar no Conselho de Segurança das Nações Unidas. As manobras das alianças militares norte-americanas e europeias sucedem-se nesta parte do globo, procurando envolver os exércitos locais e indicando claramente que se preparam futuras agressões.
POLÍCIA E GOVERNO AO LADO DAS MULTINACIONAIS
Condenados ao desastre e ao subdesenvolvimento, milhões de nigerianos vêm expropriados os enormes recursos naturais do seu país pelas multinacionais sob a protecção de poderosas alianças militares e económicas, em que a classe dirigente nigeriana desempenha também o seu papel.
Mas a resistência é um facto. O Movimento pela Sobrevivência do Povo Ogoni (MOSOP), criado por Ken Saro Wiwa, continua activo. Em 2005 surgiu o Movimento pela Emancipação do Delta do Níger, representante da etnia Ijaw. Ambos exigem reparações pelos desastres ambientais. Como não foram ouvidos, realizaram sequestros e sabotaram oleodutos e um terminal de carga.
Nos últimos anos verificaram-se no resto do país greves gerais, lutas operárias e mobilizações sociais motivadas por subidas do preço da gasolina. Na greve geral de Julho de 2003 foram assassinados pela polícia 14 trabalhadores. Em 2005, durante uma manifestação de umas 300 pessoas que denunciavam as promessas incumpridas da Chevron, o exército disparou contra os manifestantes a partir do terminal da dita petrolífera, matou um deles e feriu 30. Duas semanas depois, assaltou Odioma, comunidade da etnia Ijaw, matou 17 pessoas e destruiu 80% das casas. Deram-se mais greves gerais em 2006 e 2007, causadas por novas subidas do preço da gasolina, aumento dos impostos, e a venda de duas das quatro refinarias estatais a empresas estrangeiras.
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