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Nigéria - Gigante adormecido
A Nigéria, primeiro exportador de crude de África, não escapa ao interesse das grandes potên­cias. Richard Che­ney afirmou em 2004 que “o petróleo africano representa um mercado em cresci­mento”.
Ana Barradas | Para Kaos en la Red | 28-3-2009 a las 16:39 | 3108 lecturas
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Composta por uma complexa socieda­de multi­étni­ca, multirreligiosa e multicul­tural, a Nigéria é uma repú­blica federal di­vi­dida em seis zonas geopolíticas com cer­ca de 370 gru­pos étnicos, tem grandes reservas de pe­tróleo e gás, além de mui­tos recursos mine­rais, assim como uma po­­pu­lação das maio­res de África, 130 mi­lhões (um quinto de toda a população do conti­nente). Des­­tes, 60 milhões têm me­nos de 18 anos, o que lhe as­segura re­cursos hu­manos com grande potencial de cresci­mento e desenvolvimento – razão por que lhe cha­mam “o gigante ador­mecido”.

Contraditoriamen­te, mais de 70% dos nigerianos vivem em pobre-za absolu­ta, com especial inci­dência nas mulheres, as mais nume­rosas entre os marginaliza­dos.

Pode-se dizer que esta persistên­cia da pobreza num país tão rico se de­ve à má ges­tão de recursos, à falta de partici­pação popu­lar e, acima de tudo, à impuni­dade e fal­ta de transpa­rência financeira de uma sequência de go­vernos centrais que durante quarenta anos foram ditadu­ras sangrentas e cria­ram a todos os níveis do po­der as suas redes de cor­rup­ção e des­potismo, como o atestam os últi­mos índices publicados pela Transpa­rency In­ternational, que classi­ficam a Nigé­ria entre os três países mais cor­ruptos.

As últimas eleições realizadas em Abril de 2007 ape­nas confirmaram a já longa tradição de fraude eleitoral inaugurada pela própria administração colonial inglesa que, na passagem para a independência, entregou por este processo o poder aos sectores mais reaccionários do novel país. Nesta história terrível e dramática se po­­de encontrar a base essencial da exclusão de largos segmentos da população, arredada de todas as insti­tuições e tomadas de decisão.

No índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a Nigéria ocupa a 158ª posição, entre os 177 incluídos nos dados fornecidos pelo Programa das Nações Uni­das para o Desenvolvimento (PNUD). O PIB per capita é de 1.154 USD, relativamente alto mas muito desequili­brado em favor dos mais ricos, e o indicador relativo ao nível educativo é médio em relação aos outros países afri­canos. A esperança de vida ao nascimento, 43,4 anos, coloca a Nigéria en­tre os países mais pe­­nalizados pela mor­talidade ma­terno-infantil; a sua taxa de mor­talidade materna é das mais altas do mundo e tem vindo a aumentar.

PETRÓLEO A SAQUE

Apesar de tudo, a Nigéria é a segunda potência eco­nómica do continente africano, depois da África do Sul. A descoberta do pe­tróleo no delta do Níger, em 1958, ano da independência, implicou o desapareci­mento de terras cultiváveis. O derrame de produtos tó­xicos inutilizou um quarto dos terrenos férteis e a maior parte dos 23 sistemas fluviais e mangais do delta, sendo a região um dos maiores contribuintes para o efei­to de estufa, causa do aquecimento do pla­neta. Além disso, dispararam as doen­ças respi­ratórias e cer­tos tipos de can­cro. Este de­sastre ecológico deu cabo do modo de vida dos povos des­ta região; enquanto antes era auto-su­ficiente, hoje a Nigé­ria importa a maior parte dos alimen­tos. Au­mentou o desemprego, deu-  -se o êxodo para as cidades e para o estrangeiro e não se vê que o governo ou as instân­cias internacionais tencio­nem melhorar a situação. É esta ca­tástrofe que explica o actual recur­so às armas de sectores mais desespe­rados da po­pulação do delta do Níger, que, com ra­zão, vêem nas gran­des pe­trolíferas ali pre­sentes (Shell, Exxon­Mo­bil, Chevron e AGIP) a causa da sua des­graça. São elas que levam da região a par­te principal dos lucros do gás e do petróleo.

Ken Saro Wiwa, activista e membro do povo ogoni mandado enforcar por um dos ditadores nos anos 90 jun­tamente com oito com­panheiros da mes­ma causa, de­nunciou o genocí­dio e a destruição, mas os podero­sos e o resto do mun­do fizeram orelhas moucas, porque o petróleo fala mais alto. Aliás, dos 60 milhões de dóla­res que a Shell diz ter destinado à im­plementação de pro­jectos de desenvol­vimento em 2000, mais de 33 des­tinaram-se à constru­ção de es­tradas que serviam as suas ex­plorações.

Sendo a Nigéria o primeiro exportador de crude de África, não escapa ao interesse das grandes potên­cias. O vice-presidente norte-americano Richard Che­ney afirmou em 2004 que “o petróleo africano, pela sua alta qualidade, representa um mercado em cresci­mento para as refinarias da costa Leste”. Além disso, o petróleo do golfo da Guiné demora duas semanas a che­gar aos EUA, enquanto o petróleo do Golfo demo­ra 6 semanas. Daí as pressões para que este país abando­ne a OPEP e aumente a produção de hidrocarbonetos.

No Verão de 2007, o embaixador norte-americano em Abuja declarou que o fundamentalismo islâmico está presente na Nigéria e constitui uma grave ameaça. Daqui até à intervenção militar vai um passo, sobretudo se tivermos em conta a concorrência com uma grande potência como a China, que importa quase 25% do pe­tróleo que consome do continente africano e deu o seu apoio à Nigéria e à África do Sul para ocuparem um lugar no Conselho de Segurança das Nações Uni­das. As manobras das alianças militares norte-america­nas e europeias sucedem-se nesta parte do globo, pro­curando envolver os exércitos locais e indicando clara­mente que se preparam futuras agressões.

POLÍCIA E GOVERNO AO LADO DAS MULTINACIONAIS

Condenados ao desastre e ao subdesenvolvimento, mi­lhões de nigerianos vêm expropriados os enormes recursos naturais do seu país pelas multinacionais sob a protecção de poderosas alianças militares e económi­cas, em que a classe dirigente nigeriana desempenha também o seu papel.

Mas a resistência é um facto. O Movimento pela So­brevivência do Povo Ogoni (MOSOP), criado por Ken Saro Wiwa, continua activo. Em 2005 surgiu o Mo­vimento pela Emancipação do Delta do Níger, re­presentante da etnia Ijaw. Ambos exigem reparações pelos desastres ambientais. Como não foram ouvidos, realizaram sequestros e sabotaram oleodutos e um ter­minal de carga.

Nos últimos anos verificaram-se no resto do país gre­ves gerais, lutas operárias e mobilizações sociais mo­tivadas por subidas do preço da gasolina. Na greve ge­ral de Julho de 2003 foram assassinados pela polícia 14 trabalhadores. Em 2005, durante uma ma­nifestação de umas 300 pessoas que denun­ciavam as promessas in­cumpridas da Che­vron, o exército disparou contra os manifes­tantes a partir do terminal da dita petrolífera, matou um deles e feriu 30. Duas semanas depois, assaltou Odioma, comunidade da etnia Ijaw, matou 17 pessoas e destruiu 80% das casas. Deram-se mais gre­ves gerais em 2006 e 2007, causadas por novas subi­das do preço da gasolina, aumento dos impostos, e a ven­da de duas das quatro refinarias estatais a empresas estrangeiras.

 
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