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Mulheres:Comenda “Nise da Silveira”* para Débora Nunes
A militante do MST Débora Nunes recebeu do governo do Estado de Alagoas no último dia 8 de março, Dia Internacional de Lutas das Mulheres,a comenda Nise da Silveira*.
M.S.T.-Via Campesina | 13-3-2010 a las 14:18 | 1218 lecturas
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O título foi criado por decreto estadual para homenagear mulheres que desempenham papel relevante para a sociedade alagoana.

Débora Nunes, membro da Direção Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), recebeu a comenda das mãos da desembargadora Elisabeth Carvalho (presidente do Tribunal de Justiça), a terceira na linha de sucessão do Governo do Estado, na ausência de Teotônio Vilela.

A indicação por parte do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos das Mulheres (Cedim) simboliza o reconhecimento da luta pela Reforma Agrária num estado que contabiliza 5890 famílias acampadas (somente pelo MST) à espera por terra. Em seu discurso, Débora, que faz parte do primeiro assentamento com propriedade e uso coletivo do lote em Alagoas (Chico do Sindicato), lembrou que a Reforma Agrária é uma política que tem vários desdobramentos após o acesso à terra, como a garantia de crédito para a produção, infra-estrutura das comunidades, políticas de educação, saúde, cultura, entre outros.

“Redistribuir as terras é certamente um passo para a resolução dos problemas dos camponeses, mas, ao dar condições de vida e permanência na terra a essa população, beneficia também os grandes centros urbanos com o alimento que chega a mesa de cada trabalhador e impedindo o inchaço das favelas”, esclareceu Débora Nunes em seu discurso dirigido para uma audiência com muitas autoridades, alto escalão dos mandatários no Estado e suas famílias.

Débora ainda dedicou a comenda à memória daquelas mulheres que tombaram na luta pela terra e às que hoje simbolizam essa resistência ao agronegócio. “Por fim, dedico esta comenda às mulheres camponesas, ribeirinhas, quilombolas, indígenas que a todo tempo resistem na busca de uma relação tradicional com seus territórios”.

Dentre as demais homenageadas, ganhou destaque na cerimônia a lider Xukuru-Kariri Waconã Ermelinda Celestino, mulher de mais de oitenta anos que, com muita sabedoria popular, falou do sofrimento de seu povo, nas mãos das etnias brancas (ali presentes). As novas comendadoras lembraram do papel revolucionário que desempenhou Nise da Silveira em sua atuação como psiquiatra, combatendo as formas arcaicas de tratamento (como eletrochoques) e legando aos próprios “pacientes” o poder da auto-cura através da arte.

Comenda “Nise da Silveira”

* Dra.Nise da Silveira

(Maceió, 15 de fevereiro de 1906 — Rio de Janeiro, 30 de outubro de 1999)

Formada pela faculdade de medicina da Bahia em 1926, dedicou-se à psiquiatria sem nunca aceitar as formas agressivas de tratamento da época, tais como a internação, os eletrochoques, a insulinoterapia e a lobotomia.

Prisão

Durante a Intentona Comunista foi denunciada por uma enfermeira pela posse de livros marxistas. Presa como comunista, é afastada do Serviço Público de 1936 a 1944. Anistiada, cria em 1946 a Seção de Terapêutica Ocupacional no Centro Psiquiátrico Nacional de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, posteriormente conhecido como Centro Psiquiátrico Pedro II (CPPII). Por sua discordância com os métodos adotados nas enfermarias, recusando-se a aplicar eletrochoques em pacientes, Nise da Silveira é transferida para o trabalho com terapia ocupacional, atividade então menosprezada pelos médicos. Assim em 1946 funda nesta instituição a "Seção de Terapêutica Ocupacional".

No lugar das tradicionais tarefas de limpeza e manutenção que os pacientes exerciam sob o título de terapia ocupacional, ela cria ateliês de pintura e modelagem com a intenção de possibilitar aos doentes reatar seus vínculos com a realidade através da expressão simbólica e da criatividade, revolucionando a Psiquiatria então praticada no país.

A Casa das Palmeiras

Poucos anos depois da fundação do Museu de Imagens do Inconsciente,em 1956, Nise desenvolve outro projeto também revolucionário para sua época: cria a Casa das Palmeiras, uma clínica voltada à reabilitação de antigos pacientes de instituições psiquiátricas.

Neste local podem diariamente expressar sua criatividade, sendo tratados como pacientes externos numa etapa intermediária entre a rotina hospitalar e sua reintegração à vida em sociedade.

O auxílio dos animais aos pacientes

Ao perceber que a responsabilidade de cuidar de um animal e o desenvolvimento de laços afetivos pode contribuir para a reabilitação de doentes mentais, Nise da Silveira os incorporou a seu trabalho como co-terapeutas.Foi uma pioneira na pesquisa das relações emocionais entre pacientes e animais, que costumava chamar de co-terapeutas.

Percebeu esta possibilidade de tratamento ao observar como um paciente a quem delegara os cuidados de uma cadela abandonada no hospital melhorou tendo a responsabilidade de tratar deste animal como um ponto de referência afetiva estável em sua vida.

Ela expõe parte deste processo em seu livro "Gatos, A Emoção de Lidar", publicado em 1998.

Pioneira da psicologia junguiana no Brasil

Os estudos de Jung sobre os mandalas atraíram a atenção de Nise da Silveira para suas teorias sobre o inconsciente.Através do conjunto de seu trabalho, Nise da Silveira introduziu e divulgou no Brasil a psicologia junguiana.

Interessada em seu estudo sobre os mandalas, tema recorrente nas pinturas de seus pacientes, ela escreveu em 1954 a Carl Gustav Jung, iniciando uma proveitosa troca de correspondência.

Jung a estimulou a apresentar uma mostra das obras de seus pacientes que recebeu o nome "A Arte e a Esquizofrenia", ocupando cinco salas no "II Congresso Internacional de Psiquiatria", realizado em 1957, em Zurique. Ao visitar com ela a exposição, a orientou a estudar mitologia como uma chave para a compreensão dos trabalhos criados pelos internos.

Nise da Silveira estudou no "Instituto Carl Gustav Jung" em dois períodos: de 1957 a 1958; e de 1961 a 1962. Lá recebeu supervisão em psicanálise da assistente de Jung, Marie-Louise von Franz.

Retornando ao Brasil após seu primeiro período de estudos jungianos, formou em sua residência o "Grupo de Estudos Carl Jung", que presidiu até 1968.

Escreveu, dentre outros, o livro "Jung: vida e obra", publicado em primeira edição em 1968.

Reconhecimento internacional

Foi membro fundadora da Sociedade Internacional de Expressão Psicopatológica ("Societé Internationale de Psychopathologie de l'Expression"), sediada em Paris.

Sua pesquisa em terapia ocupacional e o entendimento do processo psiquiátrico através das imagens do inconsciente deram origem a diversas exibições, filmes, documentários, audiovisuais, cursos, simpósios, publicações e conferências.

Em reconhecimento a seu trabalho, Nise foi agraciada com diversas condecorações, títulos e prêmios em diferentes áreas do conhecimento, entre outras:

"Ordem do Rio Branco" no Grau de Oficial, pelo Ministério das Relações Exteriores (1987)

"Prêmio Personalidade do Ano de 1992", da Associação Brasileira de Críticos de Arte

"Medalha Chico Mendes", do grupo Tortura Nunca Mais (1993)

"Ordem Nacional do Mérito Educativo", pelo Ministério da Educação e do Desporto (1993)

Seu trabalho e idéias inspiraram a criação de museus, centros culturais e instituições terapêuticas similares às que criou em diversos estados do Brasil e no exterior, por exemplo:

"Museu Bispo do Rosário", da Colônia Juliano Moreira (Rio de Janeiro)

"Centro de Estudos Nise da Silveira" (Juiz de Fora, Minas Gerais)

"Espaço Nise da Silveira" do Núcleo de Atenção Psico-Social (Recife)

"Núcleo de Atividades Expressivas Nise da Silveira", do Hospital Psiquiátrico São Pedro (Porto Alegre, Rio Grande do Sul)

"Associação de Convivência Estudo e Pesquisa Nise da Silveira" (Salvador, Bahia)

"Centro de Estudos Imagens do Inconsciente", da Universidade do Porto (Portugal)

"Association Nise da Silveira - Images de L'Inconscient" (Paris, França)

"Museo Attivo delle Forme Inconsapevoli" (Genova, Itália)

O antigo "Centro Psiquiátrico Nacional" do Rio de Janeiro recebeu um sua homenagem o nome de "Instituto Municipal Nise da Silveira".

 

 

 

 
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