Desenho feito por Castelao no exílio
Luís Soto: “A Castelão e a mim figeram-nos membros  de honra da Federação Mundial de Sociedades Negras".
Fragmentos de uma entrevista de Neira Vilas a Luís Soto gravada em 1977.
Neira Vilas: Qual era a missão concreta que o governo da República lhe encomendou a Castelão em Cuba o ano 1938?
Luís Soto: “Castelão, junto com Virgínia, a sua dona, acabava de voltar da União Soviética, aonde foram no verão desse ano, numa comissão presidida por outro galego, Galhoso, de Ourense. Castelão manifestava-se mui bem impressionado por aquela visita. Eu figem-lhe então duas intervius, uma em Frente Rojo e outra em Nova Galiza, periódico do 5.º Corpo de Exército, que se publicava no frente e que eu dirigia. Sobre esta viagem dizia-me, entre outras cousas: “Se o experimento social feito polo povo da URSS, tão transcendente e significativo, tivesse fracassado, teríamos de estar sempre agradecidos a este povo maravilhoso e a esse partido tão certeiro e inteligente, que se sacrificava pola paz e pola liberação da classe trabalhadora. Mas como este experimento trunfou definitivamente, estenderá-se polo mundo inteiro e temos de seguir este espelho e este exemplo”.   “Chegou de volta Castelão, e o governo que presidia o Dr. Negrín chamou-no e disse-lhe que era mui conveniente que figesse uma viagem a América onde morava e trabalhava uma emigração mui importante, a mais importantes das Espanhas, e que fosse a Estados Unidos, Cuba, Argentina, Brasil e talvez outros países, e que levasse com ele um amigo, um amigo político que já se lhe proporia que pessoa podia ser. Castelão aceitou. Comunicou-se de primeiras com Nova Iorque, onde a Casa da Cultura da Unidade Galega acolheu a ideia com muito entusiasmo e fervor. Para acompanhá-lo propugeram-lhe a Castelão dous ou três nomes que não aceitou, explicando as causas, porque suporia que não se ia entender bem com nenhum deles. “Eu iria mui contente se puder vir comigo Luís Soto”, disse. A cousa estava um pouco verde porque eu dirigia Nova Galiza, trabalhava no comité de enlace UGT-CNT e ainda tinha outras obrigas, além de razões sentimentais em relação com o povo: o meu cautivério durante um ano metido em covas, etc., não me dava folgos espirituais para sair então de Barcelona, onde me achava. Chamou-se-me, convenceu-se-me, e efectivamente fizemos a viagem. A missão concreta era explicar aos emigrantes espanhóis –sempre se tinha em conta que a emigração galega era a mais numerosa– o significado da nossa guerra. Levariam-se como programa principal os famosos 13 pontos do governo de Negrín, nos que se explicava a solidariedade de alguns povos e de alguns governos, e a traição de outros governos à República Espanhola; explicar aos emigrantes quê significava a vitória e quê ia significar a derrota para os povos das Espanhas. Já sairam emisários de outros grupos políticos, mas pode-se dizer, sem lugar a dúvidas, com certeza, com evidência, que a campanha mais brilhante, mais proveitosa, política e economicamente foi a de Castelão.
Como se produziu o facto da tua incorporação a esta missão?
Foi como che expliquei: uma proposta de Castelão. Tem-se dito que se eu era secretário dele; que se fora uma decisão específica do Partido Comunista, enfim, tem-se especulado sobre isto. Em verdade, eu seria um mal secretário, trapalheiro como tal, sem muita ordem para uma função assim. Eu fui um discípulo de Castelão, um admirador de Castelão, que o acompanhou. Ele dizia sempre nos seus discursos que eu era o seu companheiro. Eu contentava-me com ser o seu discípulo. Discutíamos, com profundidade muitas vezes, problemas políticos do mundo e sobre da nossa guerra e da linha a levar nos discursos que pronunciavamos, que foram –asombra-te– 175 atos entre Estados Unidos e Cuba. Era, pois, uma missão política. À parte, eu trazia outras missões específicas de trabalho com os companheiros, com a classe obreira e com os camaradas, porque a classe obreira e os partidos comunistas de todo o mundo eram, fundamentalmente, os que levavam a bandeira da defesa da República Espanhola. Este é um facto histórico que não se pode negar.
Por que via faziais chegar à Península os fundos recaudados?
Nós não recaudavamos fundos proprimanete. A cousa era mui emocionante. A Casa da Cultura de Havana, a Irmandade Galega, as sociedades que estavam em Pinar del Río, Camagüey, Manzanillo, Santiago de Cuba, nos centrais açucareiros e os numerosos grupos de defesa da República recrutavam esses fundos, concentrava-nos e mandavam-lhos diretamente ao governo de Negrín, através das missões diplomáticas representativas existentes, e não havia problema algum. Castelão e mais eu nunca chegamos a ter no bulso mais lá de cinco dólares para mercar cigarros, porque fumávamos muito... Eu tenho estatísticas de todo o que se recaudou nos 175 atos, e que foi remitido polas vias ditas. De Havana, já rematada a guerra, mandaram-se dous emisários, dous galegos, para entregar os derradeiros fundos recolhidos nas nossas giras, ao governo  da República no exílio.
Que nexos tivestes com as sociedades chamadas “de color”?
Estivemos em contato com todas elas. Foi principalmente através destes contatos que Castelão se inspirou para os seus desenhos de negros. Estas instituições integraram-se totalmente na nossa campanha. Estabeleceu-se uma simpatia mui estreita. A Castelão e a mim figeram-nos membros  de honra da Federação de Sociedades de Cor de Cuba e da Federação Mundial de Sociedades Negras. Eu ainda conservo o diploma, como distinção mui prezada.
É certo que se leilavam os desenhos de Castelão nos atos?
Certo. Com isso também se acadavam quartos. Castelão desenhava muito. Eu pudem ter ficado com uma cheia de desenhos dele, mas davamos-lhos aos amigos. Fiquei somente com um cujo tema é a guarda do Presidente da República Galega, em Santiago de Compostela; trata-se de soldados que levam guarda-chuvas em vez de fuzis. É um desenho mui significativo...
Qual foi o vencelho de Castelão e teu com personalidades, instituições e partidos de signo progressista?
O vencelho foi total. À cabeça da avançada de todas as manifestações em favor da República estava o Partido Comunista de Cuba. Estivemos em centros culturais (como a Hispano-Cubana de Cultura, onde Castelão deu uma conferência sobre Valle-Inclán, e a Universidade de Havana, onde falou do problema federal), em sociedades religiosas, em fábricas de tabacos, centrais açucareiros, etc. Um mitim gigantesco levou-se a cabo nos jardins da cervejaria Pola, de Havana, e no qual falaram Castelão, Gordón Ordás e eu; havia mais de trinta mil pessoas. Em quanto às personalidades, tenho presentes a Blas Roca, Juan Marinello, Lázaro Peña, Fernando Ortiz, Nicolás Guillén... Lázaro Peña, secretário geral da Central de Trabalhadores, ia a muitos dos nossos atos e dispôs que os sindicatos, em todo o país, acodissem à nossa campanha.
Castelão, aparecia em público como galego ou como republicano espanhol?
Nos atos públicos apresentavamo-nos limiarmente como repupublicanos espanhóis, mas falavamos sempre do problema nacional, que de aquela estava mui vivo porque o governo da República, durante a guerra, impulsava a sua solução dado que este problema –ainda que muitos não querem entendê-lo assim– está intimamente ligado ao internacionalismo proletário.
Qual foi o contato de Castelão com as sociedades de emigrantes?
O contato foi permanente, estudado, preciso, sem sectarismos; científico, poderia-se dizer. Havia muitas sociedades galegas em Cuba. Achegamo-nos a quase todas elas. Mas sobretudo trabalhamos com Irmandade Galega, para dar a batalha do Centro Galego, que estava dirigido nesse momento por reacionários fascistas; queríamos “tomar” o Centro para que passasse às mãos de galegos democráticos.
Que tal acolhida popular tivo aquela campanha de Cuba?
A mais rotunda e fervorosa acolhida que podes imaginar. O povo cubano foi, de quantos conheci, o mais valente e decidido, enrolado a favor da República Espanhola; o mais ergueito, o que melhor compreendeu, politicamente, o significado de aquela luita contra do fascismo. Era emocionante. Todos pediam para ir a combater. Rematava de falar Castelão, fazia-se uma coleta e a gente entregava quanto tinha: aneis, relógios, medalhinhas de ouro com a Virgem do Cobre que muitos levavam desde pequechos, como era costume de aquela; vi a obreiros que botavam no cenário os sobres, sem abrir, com a paga de uma semana ou de uma quincena, e recordo o caso de uma mocinha que sacou os sapatos (os primeiros da sua vida, pois disse logo que sempre andivera descalça) e entregou-lhos a Castelão e foram leilados, e um do público, um homem de recursos seguramente, pagou por eles trescentos pesos. A pesares do atrasso cultural (havia muito analfabetismo então) e de todas as opressões e corruções e colonizações que vinha sofrendo, era um povo que tinha alerta a sua consciência política, e compreendia com maravilhosa perceção todo o que se jogava dentro da Península Ibérica. Castelão intuia, e nós também, que lhe estava reservado a esse povo –como assim ocorreu com os anos– um grande destino histórico.
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