Nos Estados Unidos de América, Brasil e Portugal, é conhecido sobretudo como científico; na Galiza sublinha-se, porém, o seu trabalho poético. Guerra da Cal, por palavras de Joel R. Gômez, “chegou a ser o cientista galego mais reconhecido internacionalmente, para além do poeta do século XX na língua da Galiza com maior destaque por parte da crítica literária especializada internacional, e o investigador que mais trabalhou polo conhecimento e difusom da Língua e da Literatura da Galiza no mundo”. Não falaremos aqui, porém, de nunhuma destas duas fazetas, senão do seu compromisso incorruptível com a libertação da sua Pátria. 
Passo pola cadeia, combatente da Milícias Galegas e Capitão do Exército Popular
Estudante em Madrid na época da Geração de 27 da que faz parte, Da Cal resulta detido e encarcerado pola sua militância no movimento grevista estudantil que nos anos 28 e 29 desfiou a ditadura de Primo de Rivera. Não tardará muito em volver à prisão, pois participa nos grandes confrontos públicos que precederam a queda da Monarquia, com graves distúrbios nas ruas de Madrid. A proclamação da República porá-o novamente em liberdade. Estes anos de juventude serão chave na sua formação: faz dobragens de filmes com Buñuel, escreve com Lorca os “Seis poemas galegos”, assiste às reuniões do apartamento de Pablo Neruda e à tertúlia dos deputados galegos Castelão, Outeiro Pedraio, Vilar Ponte e Soares Picalho. Nos verãos percorre a costa galega junto com os nacionalistas de Lugo: Luís Pimentel, Ánxel Fole, Evaristo Correa Calderón, Jesus Gal y Bay e Arturo Souto. Este grupinho protagoniza no Dia da Pátria de 1930 o primeiro içado da bandeira galega no edifício do Círculo das Artes, exibição proibida por Real Decreto.
Com o golpe fascista combate no assalto popular do Quartel de Montanha no que se refugiavam os fascistas, e pouco depois alista-se nas Milícias Galegas como voluntário, combatendo na frente de Toledo. Participa também na revista antifascista Nova Galiza, destinada aos soldados galegos, promocionada pola “Oficina Galega” da Generalitat de Catalunha, tendo de companheiro a Ramão de Valenzuela, que heroicamente passara das trincheiras fascistas ao exército popular. Ramão Bosteiro, da Frente Popular Antifascista Galega de Nova Iorque viaja até a fronte do Ebro em plena contenda, levando consigo a América de volta ao capitão do Exército Popular Ernesto Guerra da Cal. Já nos EUA, em missão oficial do Serviço de Inteligência Militar, surprende-o a derrota republicana, ficando exilado no país, volvendo a entrar em contato com Castelão e com os antifascistas galegos da cidade. Assim narra ele mesmo a sua missão nos EUA:
“A minha missão ia dirigida a verificar sur place certos informes recebidos no Ministério sobre malversações de fundos recaudados com destino à ajuda da nossa causa, por determinadas organizações norteamericanas. No escasso tempo que durou a minha missão -de janeiro a março de 1939- pude comprovar a veracidade destes informes: apenas uma parte dos fundos publicamente recolhidos para ajuda do nosso esforço militar era enviada ao governo da República. O grosso dessa recaudação passava para os cofres dessas organizações políticas organizadoras de coletas -ou ia parar a partidos de ideologia afim do nosso lado. Tais organizações eram de cariz estalinista. As únicas outras agrupações neoioquinas ativas em favor da causa democrática -que também recaudavam fundos, mas a escala incomparavelmetne menor- eram as “Sociedades Hispanas Confederadas” e o “Frente Popular Antifascista Galega”- ambas as duas adminsitravam as cantidades recaudadas com a maior honestidade e transparência, na adquisição de material sanitário durante a luita e em ajuda aos refugiados ao final da guerra”. [Veja-se: ORDAZ ROMAY, Mª Ángeles. "Las Sociedades Hispanas Confederadas en archivos del FBI. (Emigración y exilio español de 1936 a 1975 en EE.UU." Revista Complutense de Historia de América. 2006, vol. 32, 227-247. http://revistas.ucm.es/ghi/11328312/articulos/RCHA0606110227A.PDF].
A sua estância nos EUA foi muito agitada academicamente, luitando incansável pola difusão da cultura galaico-luso-brasileira nas universidades americanas, polo que se dedicou de cheio à investigação e à diplomacia. O cineasta Luís Buñuel, amigo da juventude, oferecera-lhe ir junto ele dubrar filmes em Hollywood. Afortunadamente, recorda a sua primeira mulher Margarita Ucelay, decidiu não ir, livrando-se seguramente assim da perseguição macartista.
Recordará muitos anos depois Carlos Durão, quem o conheceu em Londres, que Da Cal falava como ele
“de como foi medrando nele a dedicação incansável à cultura galego-portuguesa, desde as primeiras colaborações para o semanário Nova Galiza, da Generalitat, durante a guerra; da resistência galega contra os ‘filhos de Mudarra’, os crimes falangistas, a segunda doma e castração da Galiza, a guerrilha longa nos montes galegos. E tinha palavras duríssimas para os que detêm hoje o poder na nossa Terra, sem poupar à máxima representação da adminsitração espanhola na Galiza, ‘La Xunta de Galicia’”. [ver: DURÃO, Carlos. “Impressões de Guerra da Cal em Londres”, Agália, nº 41, Primavera 1995, 61-66]
A defesa intransigente da identidade: “Não sou espanhol, sou galego”
O quiroguês destacará durante toda a sua vida pola defesa intransigente da sua nacionalidade galega, cuidando-se muito de que na sua intensa vida académica por 25 países e os três continentes, nunca fora apresentado como “espanhol”, senão como galego. Em 1948 inicia os trámites para renunciar à nacionalidade espanhola, protagonizando um enfrentamento verbal com o embaixador espanhol que gostará de recordar alegremente com os anos:
“Eu disse na cara ao Porras que não era espanhol.
—Perdón Sr. Embajador, eu não sou espanhol, eu sou galego.
—¿Cómo es posible que diga Vd. Eso?
—Es posible porque es como yo me siento, y he ido por el mundo entero diciendo eso, hasta creando malignamente el equívoco.
Como me dizia em inglês:
—You are Spanish.
—No, I am Galician.
—A Galician? What is that?
—Have you heard about a northwest corner, north of Portugal? This is a land that happens to belong to Spain Politicaly, but the point os wiev of spirit is more akin to Portugal, and I belong to that land, and that is my nationality, and the only one I have.
—How cute, how interesting.
Que quando um americano, un inglês, não sabem como reagir, dizem “How interesting”. Monumento ao cão de palheiro, um cão magro, raquítico, que a fim de contas é o símbolo da Galiza.”
Em 1960 é chamado a participar como invitado de honra, junto com Jean Paul Sartre, o apóstolo do “Terceiro Mundo” e das guerras de descolonização do momento, no Congresso de Crítica Literária do Brasil. Levado à televisão para falar das suas investigações sobre Eça de Queiroz, antes de sair em direto o apresentador pergunta-lhe como é que tanto sabia da literatura portuguesa. Da Cal respondeu-lhe que era galego, ao que o apresentador contrariado respondeu com um “quer dizer você espanhol?”. Da Cal reiterou-lhe que não era espanhol senão galego, quando de repente se acende a luz que indica que a câmara estava ativa e a retransmitir em direto, reagindo o apresentador assim: “Cá, à minha direita, o professor Ernesto Guerra da Cal, que insiste em ser chamado de galego”. Por certo que a sua trajetória se voltaria cruzar com a de Sartre: à morte do literato francês André Malraux abriu-se o debate na Academia Brasileira das Letras sobre quem deveria cobrir essa vacante como sócio correspondente. O nome de Guerra da Cal era baralhado junto como o de Sartre. [ver: RANGEL, Maria Lucia. "En el te de la Academia de Letras, la mayoría, supersticiosa, prefiere café". Revista de Cultura Brasileña, núm. 44 - Junio 1977, 106-111. http://hemeroteca.fundacionhispanobrasilena.es/hemeroteca/ver/954].
Durante toda a sua vida não voltou à Terra. Em parte porque temia sofrer muito ao encontrar a sua Quiroga natal modificada e derrubar o mito pessoal que sempre levou no coração, da sua aldeia da infância, mas também porque “a Galiza é um país semiconquistado e eu não posso conviver com uma Galiza mediatizada polo Estado central. Estou aqui [por Portugal], numa Galiza livre, onde falo a minha língua, estou rodeado de pessoas que falam a minha língua e só tenho que ouvir de vez em quando um turista a falar castelhano. Mas se for à Galiza tenho que estar a ouvir os galegos a preferirem, muitos deles, serem espanhóis de quarta classe a galegos de primeira”. Quando queria ver os amigos galeguistas achegava-se à raia, mas nunca volveu pisar chão galego este autodenominado “separatista integral”.
O anti-pinheirismo
O grande sucesso académico e literário de Guerra da Cal foi acolhido no galeguismo de aquém-Mar com entusiasmo, tanto que o patriarca Outeiro Pedraio não hesitou em chamar a da Cal de “mestre de nova galeguidade”. Em ocasiões achegou-se até o Minho, sem cruzar a fronteira e pisar uma terra que considerava escravizada, para ver os seus companheiros. Porém, com os anos a relação foi enfriando, sobretudo conforme se abria na política galega um oco para o possibilismo autonomista. Da Cal recordava em 1985 que “naquela altura [refere-se a quando publicou o seu primeiro livro na Galiza] tanto Pinheiro como Del Riego estavam muito lusófilos, mas agora como mandam, agora pertencem à Censura Oficial del Reino”. Laiava-se também da pouca coerência de Del Riego na seguinte anedota:
“Até me aconteceu uma vez falando num hotel como um ‘botones’, falava-me em espanhol. Eu perguntei-lhe: E tu que és galego, por quê me falas espanhol? Respondia, perdom, senhor, não quis desconsiderá-lo. Isto só se resolve não infringindo para nada. Se eu estou na Galiza, não uso o espanhol para nada, Eu ia ao escritório do Del Riego e via com surpresa um rapazito que fazia os recados, e ele falava em castelhano com o rapaz. Aí essa geração cresce pensando que o galego é oprobioso, que é uma carga íntima de proletarização, e que falar galego é diminuir-se socialmente. Então estamos perdidos, somos a última geração que vamos falar galego.” [vid.: POSADA, José. “Conversa no Estorial com Ernesto Guerra da Cal”, Agália, nº 39, Outono 1994, 329-336]
O trabalho “O pinheirismo e a renúnica nacional galega” da Comissão de Memória Histórica da Gentalha do Pichel rematava com estas acertadas palavras:
“Na realidade, e apesar dos esforços literários e jornalísticos por aparentar o contrário, o porvir do nacionalismo galego de esquerdas "nom se encontrou nos subúrbios", como se dizia a boca cheia nos anos 70. Floresceu numha nova classe média, e este sector social convive nas mesmas instituiçons culturais, empresariais e políticas que os presuntos rivais do pinheirismo confesso. Como a maioria das esquerdas maioritárias do nosso contorno geográfico, a galega é umha esquerda dos funcionários, os técnicos e os profissionais, "umha classe média equivalente à de qualquer país europeu", por palavras de Camilo Nogueira. Como nom pedimos o que nom há, também nom exigimos a esta classe que abrace o radicalismo político com que se disfarça, incompatível com a sua posiçom privilegiada. Devíamos pedir, isso sim, que se comporte como umha classe nacional, e que nom legitime as estratégias de subalternidade do pinheirismo. Para os notabilinhos passarem a notáveis, deveriam começar por desertar de todas as estruturas culturais e académicas espanholas, fundando instituiçons de seu. Ainda está por vir umha verdadeira malha mediática, educativa, editorial que situe a Galiza na centralidade, como projecto de soberania e de poder pleno sobre todo o nosso.”
Pola nossa parte podemos concluir que Guerra da Cal não serve, efectivamente, de referência para o radicalismo político preciso para derribar as engranagens do mundo capitalista. Sim foi, mais que ninguém na Galiza, um exemplo de classe nacional que não legitimou as estratégias de subalternidade. Isso seguramente é o que nos cabe pedir-lhe, e isso foi o que deu.
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