Buscar  
A Guerra de Obama e as eleições na América Latina
A crise do governo Obama, com o envio de soldados para o Afeganistão, provocou um agravamento da crise capitalista, que pode ser verificado com as eleições conturbadas em Honduras, Uruguai e Bolívia
Rafael Dantas | Causa Operária | 15-12-2009 a las 0:28 | 300 lecturas
www.kaosenlared.net/noticia/guerra-obama-as-eleices-na-america-latina
Compartir: Publicar en Facebook Publicar en Twitter Publicar en Meneame Publicar en Google Buzz Publicar en Technorati Publicar en Delicious Publicar en AlternativeWeb
Com um contingente de mais 30 mil soldados é óbvio que a promessa de Obama de retirada das tropas em 2011 não vai acontecer.

O cenário internacional está se desenvolvendo para uma crise política e revolucionária de grandes proporções. O caso mais evidente, sem sombra de dúvida, é a ofensiva do governo Obama contra o Afeganistão. Após anunciar o envio de mais de 30 mil soldados para o país, as conseqüências desta decisão não param de se agravar.

Um reflexo desta política foi constatado por uma pesquisa de opinião realizada pela Universidade de Quinnipiac, no estado de Nova Iorque, após o anúncio de envio das tropas. Nesta pesquisa, a popularidade de Obama registrou seu menor nível desde sua posse em janeiro deste ano.

A aprovação de Obama constatada na pesquisa foi de 46%, reflexo imediato da ofensiva preparada no Afeganistão. Ainda segundo a pesquisa, 44% dos entrevistados, de um total de 2.313 pessoas, se declararam insatisfeitas com o governo de Obama. No quesito da política econômica, 54% não concordam com as decisões do governo.

Segundo um dos pesquisadores, "o nível de aprovação do trabalho do presidente Barack Obama continua caindo e é evidente que essa deterioração indica que os eleitores não estão satisfeitos com os assuntos de caráter nacional" (Dow Jones, 9/12/2009).

Estes assuntos estão diretamente ligados aos efeitos da guerra que consome bilhões de dólares dos cofres públicos e piora exponencialmente as condições de vida da população norte-americana.

Sem data para sair

A manutenção da guerra só vai facilitar o aprofundamento da crise. Os oito anos de guerra foram praticamente oito anos de fracasso para o imperialismo norte-americano. Antes do anúncio do envio de 30 mil soldados a mais, os Estados Unidos já estavam mergulhados em uma crise gerada pelas eleições fraudulentas que ocorreram sem nenhum apoio dos afegãos. Este governo fantoche, encabeçado por Hamid Karzai, empossado pela vontade do imperialismo, além de ser um ponto de apoio da ofensiva imperialista é também uma “âncora”, pois não tem nenhum tipo de autoridade junto a população, e sequer pode-se apoiar em instituições públicas, forças armadas etc., pois a guerra não deixou “pedra sobre pedra”.

Na verdade, por trás de Karzai está apenas e tão somente o aparato bélico dos Estados Unidos. As tentativas do imperialismo de “reconstruir” o país, “acabar com a corrupção”, instaurar a “democracia” e colocar a “casa em ordem” é pura ilusão diante da imensa resistência que existe no país.

As condições para este fracasso ainda maior já estão dadas, os Estados Unidos já enviaram na última semana 16 mil soldados e já estão sendo feitas articulações com a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) para o envio de pelo menos mais sete mil soldados de 25 países aliados. Serão mais de 40 mil novos soldados em campo.

Com um contingente destes é óbvio que a promessa de Obama de retirada das tropas em 2011 não vai acontecer. Um membro do governo, James Jones, Conselheiro Nacional de Segurança da Casa Branca, desmascarou a promessa. Segundo Jones, não há previsão alguma de retirada das tropas, o que existe é um início de transição marcado para 2011 que pretende colocar, aos poucos, o governo afegão, no controle do país. Mas de acordo como as coisas estão caminhando, mesmo esta previsão não é confiável.

A maior evidência da farsa do “fim da guerra” veio com a viagem ao Afeganistão do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, que foi pessoalmente inspecionar o andamento da guerra chegando a declarar em solo afegão que os Estados Unidos estavam na guerra para ganhar. "Todas as peças estão se juntando para termos êxito", afirmou (Associated France Press, 9/12/2009). Outra evidência veio com a declaração de Gates sobre a retirada das tropas. O secretário da Defesa afirmou que não há nada estabelecido sobre a retirada das tropas, apenas que esta “pode ocorrer” em julho de 2011, quando alguns soldados deixariam umas poucas províncias.

A promessa de Obama, na verdade, serviu de fachada para permitir o envio das tropas sem muito alarde. O que está em discussão agora é como os milhares de soldados enviados atuarão.

Guerra “pela paz”

No último dia 10, o cinismo do imperialismo mundial foi às alturas. Em meio à ofensiva de guerra no Afeganistão, Obama recebeu o Prêmio Nobel da Paz, em Oslo na Noruega. Uma tentativa clara de esconder da maneira mais cínica o fato de que Obama não está interessado em promover a paz, mas intensificar o massacre contra a população afegã e os povos do Oriente Médio.

Durante a cerimônia, mais de 10 mil pessoas fizeram manifestações e protestos por toda Oslo contra a guerra do Afeganistão e a entrega do “prêmio” de pacifista ao belicoso Obama. Os manifestantes exigiam o fim da guerra e a retirada imediata das tropas.

Em seu discurso de agradecimento, Obama foi ainda mais hipócrita ao justificar a guerra: "temos que entender que haverá guerra, mas ainda assim haverá um esforço pela paz. Esse é um desafio que teremos que enfrentar. Vamos lutar pelo mundo como deve ser".

O esforço pela paz não existe, enviar mais de 30 mil soldados para o campo de batalha no Afeganistão e promover a morte de milhares de civis, mulheres, crianças etc. não é nenhuma promoção pela paz. A guerra é inerente à política de roubo e de rapina do imperialismo. Querer que daí venha qualquer alternativa de paz é a mais alucinada das ilusões.

O presidente norte-americano ainda fez a defesa do uso da força: "eu acredito que a força possa ser justificada em termos humanitários, como foi nos Bálcãs, ou em outros lugares arrasados pela guerra. A falta de ação aflige nossa consciência e uma intervenção tardia pode ser mais o­nerosa. É por isso que todas as nações responsáveis devem aceitar que o papel de militares com um claro mandato pode ser decisivo para manter a paz" (AFP, 11/12/2009).

Para justificar o massacre Obama não poupou cinismo: “estamos em guerra, e sou responsável pelo envio de milhares de jovens americanos à batalha numa terra distante. Alguns vão matar. Alguns serão mortos. E vim aqui com o senso aguçado do custo de um conflito armado (...) tomado de difíceis questionamentos sobre a relação entre guerra e paz, e nosso esforço para substituir uma pela outra" (Idem).

Fracasso iminente

Afirmar que os Estados Unidos vão ganhar a guerra, como declarou Robert Gates em visita ao Afeganistão é alimentar ilusões. É óbvio que a guerra do Afeganistão é um fracasso notório para o exército norte-americano.

Em contrapartida a este devaneio de Gates, o ex-conselheiro de Obama para a guerra, Bruce Riedel, deu declarações bem mais realistas sobre a situação no Afeganistão. Para ele, os Estados Unidos "estão perdendo a guerra no Afeganistão, se já não perderam" (Associated France Press, 10/12/2009).

Esta não é uma opinião qualquer, de um desavisado, Riedel foi durante 30 anos agente da CIA e no início deste ano foi o coordenador de uma equipe de especialistas que estudou detalhadamente a região do Afeganistão e do Paquistão para formular uma nova estratégia de ação do exército norte-americano.

Ele foi bastante objetivo ao declarar que a guerra é um fracasso e que as condições para o exército norte-americano são as piores possíveis. "Todos os indícios e todas as estatísticas mostram que a dinâmica está hoje inteiramente a favor dos talibãs. O presidente Obama herdou, em janeiro de 2009, um desastre no Paquistão e no Afeganistão (...) e as coisas pioraram nos últimos dez meses. Uma guerra que começou em 2001 com notável sucesso (...) degenerou", afirmou (Idem).

O que existe no momento é um enorme problema que a burguesia norte-americana e Obama terão que resolver. Se tirarem as tropas vão agravar a situação tanto política como economicamente. Se não, sofrem a pressão, cada vez maior, da população norte-americana. Esta pressão pode, inclusive, ser uma séria ameaça ao governo Obama e também ao regime nos Estados Unidos.

Com a permanência das tropas no Afeganistão e até mesmo o aumento do contingente de soldados, as tendências revolucionárias em toda a região do Oriente Médio, Afeganistão, Paquistão etc., serão elevadas. Há ainda uma tendência à mobilização de vários setores nos Estados Unidos, como a juventude e os trabalhadores norte-americanos.

Isolamento de Zelaya

O impasse nas eleições fraudulentas de Honduras ainda continua. Depois do golpe “institucional” do imperialismo para dar uma saída diplomática para a crise com eleições notoriamente fraudadas com menos de 30% de votantes e a indicação de um candidato pró-golpe, os artífices da derrubada de Zelaya querem enfiar goela abaixo o novo presidente fantoche, Porfírio Lobo.

A crise no país se agravou ainda mais. A oposição não foi apenas expressa no baixíssimo número de votantes, mas em diversos protestos realizados contra as eleições. O exército de Honduras declarou que mais de 40 atentados a bomba foram feitos no período eleitoral.

A eleição fajuta está se estabelecendo e dando espaço para a direita. O governo golpista tentou deportar Zelaya para o México, mas mediante a assinatura de um documento de renúncia do cargo de presidente, o que Zelaya, obviamente, se recusou a fazer.

O presidente deposto, apesar do “apoio” formal de Lula, recebeu também um ultimato da embaixada brasileira para se retirar. Tem até o dia 27 de janeiro para sair. Esta data é, oficialmente, o último dia do mandato de Zelaya como presidente. O encarregado de negócios da embaixada brasileira, Francisco Catunda, foi bem direto ao dizer que “ele [Zelaya], tem plena consciência que ao terminar o mandato deverá seguir outro destino” (O Globo, 11/12/2009).

Agora, após as eleições farsa, o imperialismo quer estabelecer uma suposta volta à normalidade. O resultado é que Zelaya ficou completamente isolado, sem nenhum apoio.

Apesar das declarações de governos da América Latina, como Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Venezuela etc. de que não concordam com as eleições organizadas pelo imperialismo, nada de concreto foi feito para reverter o quadro.

O imperialismo quer, com a eleição fajuta e o isolamento de Zelaya, consolidar o golpe militar e tentar estabilizar o regime em Honduras, mas as conseqüências podem ser desastrosas e provocar uma desestabilização generalizada em toda a América Central.

Governo com fachada de esquerda

Outra eleição que também teve desdobramentos que demonstram a crise política na América Latina aconteceu no Uruguai. O segundo turno das eleições presidenciais realizadas em 29 de novembro colocaram no poder Pepe Mujica, o ministro da Pecuária, Agricultura e Pesca do governo Tabaré Vázquez.

Mujica ganhou com 53% dos votos e o segundo colocado, Luiz Lacalle, ex-presidente, membro do conservador Partido Nacional, teve 43%. A eleição de Mujica é bastante sintomática. Ele é um conhecido ex-militante de esquerda que foi integrante do Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros (MLN-T) que tinha orientação nacionalista e se autodenominava marxista.

Os Tupamaros foram o grupo guerrilheiro de maior destaque do Uruguai. Realizavam assaltos, seqüestros de repercussão internacional. Em uma dessas operações, o grupo ocupou a cidade de Pando e saquearam os bancos em 400 mil dólares.

Pepe Mujica foi preso após levar seis tiros da polícia em uma emboscada. Ficou preso durante 15 anos sob as piores condições, sob tortura, maus tratos e condições subumanas de confinamento.

Com todo este histórico, a eleição de Mujica, vencendo o conservador do Partido Nacional, é bastante sintomática. É mais um presidente com pinta de esquerdista eleito na América Latina.

Mujica já foi deputado e senador, todos os cargos pelo partido Colorado. Mas, assim como acontece com os outros governos esquerdistas da América Latina, o de Mujica não vai ser diferente. Ele fez declarações que mostram de maneira evidente que a colaboração de classes com a burguesia vai ser a regra. Já afirmou que vai seguir à risca o governo de Tabaré Vázquez que foi notoriamente um governo de colaboração com o presidente Uribe e com a burguesia.

Hoje renega completamente os Tupamaros e condena veementemente as ações do grupo, atacando o uso das armas durante os anos 1960 e 1970.

Declarou também que vai abrir o país para grandes empresas explorarem os recursos naturais e supostamente promoverem o desenvolvimento tecnológico do Uruguai. Na verdade, será a mais pura exploração econômica.

Outra das declarações de Mujica também é bastante reveladora. A respeito do governo Lula disse que é um exemplo a ser seguido e que gostaria de ser uma espécie de “clone” do presidente brasileiro.

Não precisa ser nenhum gênio para concluir que seguir o exemplo do governo Lula é ser um capacho do imperialismo e governar para os interesses dos banqueiros e capitalistas.

Esta cobertura de esquerda do governo Mujica deve ser denunciada e os trabalhadores e a população devem se organizar para derrotar mais este governo de colaboração de classes a serviço do imperialismo.

Segundo mandato de Evo Morales

Aconteceram também eleições na Bolívia. O atual presidente, Evo Morales, foi reeleito com mais de 60% dos votos e sua eleição também indica um sinal de evolução da crise. O segundo colocado, o direitista, Mandfred Reyes, teve metade dos votos de Morales.

Além de ficar por mais cinco anos no comando do País, a bancada do MAS (Partido Movimento ao Socialismo) também aumentou. Foram eleitos 36 senadores e 130 deputados. Com esta bancada, Morales vai ter a maioria do Congresso e vai conseguir aprovar qualquer medida.

Este segundo mandato de Evo Morales demonstra uma nítida evolução da crise capitalista que não consegue mais sustentar um governo de direita e precisa atuar sob a fachada dos governos de esquerda. Sob a forte pressão popular, totalmente contrária a entrega das riquezas naturais do país, Evo Morales foi obrigado a estatizar várias empresas estrangeiras. Jazidas de petróleo, minérios etc. E até ocupou fábricas com o exército.

Como a mobilização popular continua bastante forte, já prometeu mais estatizações para o segundo mandato.

Mas é preciso deixar claro que no plano de nacionalização de Evo Morales, há várias lacunas que permitem que a burguesia internacional possa controlar segmentos importantes e decisivos do setor petrolífero, como a infra-estrutura, manutenção dos postos e equipamento. É uma enganação digna dos governos de esquerda para enganar o povo e permitir uma maior exploração e expropriação da população.

Para o segundo mandato está em pauta a discussão da nova Constituição Política da Bolívia. O projeto desta nova constituição já permite observar como o governo Evo Morales está de comum acordo com os fascistas e a burguesia pró-imperialista.

Esta nova Constituição vai permitir, por exemplo, que as empresas estrangeiras continuem atuando no país. Não estipula um programa de reforma agrária, não acaba com a lei de privatizações etc. Vai ser, na prática, a mesma constituição, mas com uma aparência de esquerda.

O governo de Evo Morales, como já ficou claro no primeiro mandato, não vai corresponder aos interesses da população, pois está diretamente envolvido com os interesses da burguesia e da propriedade privada.

É necessário que os trabalhadores bolivianos pressionem o governo de maneira a acabar com a conciliação de classes com a burguesia. Os trabalhadores devem se organizar de forma independente para de fato lutar por seus direitos, pela estatização de todo o latifúndio, sem indenização, por um governo dos explorados, de trabalhadores da cidade e do campo.

http://www.pco.org.br
 
Más información:


Si quieres contribuir a que Kaos en la Red pueda seguir publicando artículos como este, puedes hacer tu donación en:
Paypal (seguro y permite diferentes formas de pago)
Microdonación de 2 euros
Donación de importe libre


Noticias relacionadas

Golpe en Honduras comenzó desde el primer día de gobierno de Zelaya, afirma Patricia Rodas

| Con información de las agencias Prensa Latina y la AINLa oligarquía hondureña comenzó a gestar el golpe contra el presidente Manuel Zelaya desde su toma de posesión, en 2005, estimó en La Habana la canciller constitucional Patricia Rodas
[16-12-2009] | 679 lecturas

El pueblo gigante de Honduras

Raul Bracho | Para Kaos en la RedUn enjambre de espíritus de todos los tiempos, todos regresan al campo de batalla, la lucha no será fácil pero la victoria será segura. !Constituyente para el pueblo de Honduras!
[16-12-2009] | 1610 lecturas | 3 comentarios

Honduras: Más acerca del asesinato del activista de la Resistencia Walter Trochez

Feministas en Resistencia y otras organizaciones de Honduras | Para Kaos en la RedEn agosto pasado denunció que todos los días lo buscaban hombres desconocidos y tuvo que escapar de su domicilio. Ese mismo mes policías lo capturaron en las inmediaciones del Congreso Nacional.
[15-12-2009] | 878 lecturas

Honduras: Desapariciones y asesinatos. Ola represiva contra la Resistencia

Giorgio Trucchi | Rel-UITAEl Comite para la Defensa de los Derechos Humanos en Honduras (CODEH) denuncia plan de terror para acabar con el proceso de fortalecimiento de una alternativa política y social en el país.
[15-12-2009] | 767 lecturas

Hondureños continuarán la lucha por la constituyente, afirma Patricia Rodas

| Prensa LatinaPatricia Rodas denunció que el golpe de Estado en Honduras fue un golpe contra el ALBA y manifestó su convencimiento que ese cuartelazo será vencido por el pueblo hondureño.
[15-12-2009] | 718 lecturas | 3 comentarios

Activista hondureño es asesinado en Tegucigalpa

Adital | Para Kaos en la RedHonduras ya suma 41 muertes hasta hoy víctimas de la represión y persecución política del gobierno provisorio de Roberto Micheletti
[14-12-2009] | 673 lecturas

Comentarios (0)
La inserción de comentarios en esta noticia está desactivada

Más información en Kaos en la Red
América Latina Internacional Izquierda a debate

Col-lectiu Kaos en la Red - Carrer Ramón Llull 132 Terrassa, el Vallés Occidental (Paísos Catalans)