Certo, para já, é que é republicano, laico e socialista, como afirmou em entrevista. Mas como Mário Soares, o mesmo Mário Soares que diz “Sócrates é fixe” e a quem não repugna nada uma coligação pós-eleitoral entre PS e BE, coisa que tornaria Louçã igualmente fixe?
A pergunta paira no ar, ainda sem resposta, apesar do não do BE a uma coligação com o PS de Sócrates. Segundo uns, esta apreciação de Soares, o grande mestre da manobra reformista, é letal para ambos os partidos por ser contra natura; para outros, e uma vez afastado um Sócrates sem maioria absoluta, só essa solução poderá fazer o PS desistir de reeditar o bloco central.
Na ala esquerda do PS, Manuel Alegre já falou, durante a campanha eleitoral, da “esquerda possível” e Ana Gomes declarou positiva a aliança. Na ala direita do BE, Miguel Portas pôs um comício ao rubro ao declarar o seu partido pronto (“Estamos prontos!” foi um dos lemas centrais da campanha eleitoral do Bloco de Esquerda, difundida por todo o país em milhares de gigantescos cartazes) para a aliança e para “ajustar contas”, lembrando que o eleitorado socialista não é assim tão diferente do BE. Francisco Louça, com um discurso cada vez mais rebaixado, no engodo de mais votos, rematava levantando a bandeira do Serviço Nacional de Saúde, a já tão desfigurada reforma socialista da saúde.
Bem podem agora os bloquistas esbracejar dizendo que não, que nunca se aliarão na governação com este PS. Com o outro (qual?), é um assunto a ponderar. E já se está a ver qual o preço a pagar pelo BE para interromper o ciclo da alternância PS-PSD, com a sua ala direita (Miguel Portas, Daniel Oliveira, Pureza, Joana Amaral Dias, etc.) fortemente representada no Parlamento Europeu, Assembleia da República e Assembleia Municipal de Lisboa, onde ocuparam os lugares cimeiros das listas eleitorais do BE, a responsabilizar o direcção do BE e o a sua orientação eleitoral pelo desaire nas eleições para as autarquias. Segundo eles, o desaire eleitoral do BE, que perdeu cerca de meio milhão eleitores nas autárquicas, voltando aos níveis de 2001 e a uma expressão residual, ficou a dever-se ao facto do BE não se assumir uma atitude “responsável”, de partido que quer assumir responsabilidades governativas – uma crítica indirecta à orientação de Louça, de não apoiar um governo chefiado por Sócrates.
A concretizar-se a possibilidade do BE vir a apoiar um governo PS sem Sócrates (é previsível a queda do governo daqui por ano e meio e a convocação de eleições legislativas, antes das eleições presidenciais) a realpolitik falará mais alto e todos os argumentos serão bons para demonstrar que, de cambalhota em cambalhota, tudo estará conforme com o programa, até porque ele é de facto ambíguo a esse respeito, como já se constatou nas passadas concertações autárquicas de Lisboa. Lembremos por exemplo a história do Zé que fazia falta, e que se bandeou para o PS a meio do mandato. Isto para não falar das figuras gradas que começam a abandonar o BE e aderir ao PS, como Francisco Vale de Almeida, ou as que vai a caminho disso (Joana Amaral Dias), desiludidas com os seus pruridos “esquerdistas”.
Já vimos antes este filme e sabemos como termina: mais uma derrota, a prazo, para essa esquerda patética que nunca aprende e, cada vez mais cega pela táctica imediatista, vive a repetir os mesmos erros.
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#1.- os perigos de fazer e não fazer
David|23-10-2009 21:15
Eu também acho que o Bloco corre grande risco de seguir os passos da IU espanhola. Deviam era ficar na oposição mantendo clara a alternativa ao PS. É o que vão fazer o resto dos partidos. O PS em minoria não durará muito e, se uma alternativa clara de esquerda fizer bem o trabalho, podem obter ainda melhores resultados num futuro próssimo.
O perigo é tambén que muitos votos do PS podem fugir à direita.
Concordo em que o possibilismo e o medo de perder a primeira oportunidade podem ser fatáis.
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