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Fórum Social Mundial
Nem todos os activistas que se reuniram em Porto Alegre no FSM para fazer o balanço da sua acção reconhecem o fracasso dos objectivos proclamados há dez anos contra as grandes potências
Ana Barradas | Para Kaos en la Red | 2-3-2010 a las 21:39 | 879 lecturas
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Nem todos os activistas que se reuniram em Porto Alegre, em Janeiro, no Fórum Social Mundial para fazer o balanço da sua acção reconhecem o fracasso dos objectivos proclamados há dez anos, ainda frescas que estavam as   manifestações antiglobalização em Seattle, Washington e Praga contra as grandes potências.

Assentes de início na ideia de que os movimentos sociais e as organizações não-governamentais – e não os partidos políticos – deviam ser os protagonistas da luta anti-imperialista, os fóruns entretanto realizados congregaram muita simpatia e participação. Porém, não se confirmou a profecia que difundiam e que asseverava que os partidos tinham os dias contados como expressões organizadas de luta contra os grandes interesses financeiros: a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e o Fórum Económico Mundial de Davos.

O “outro mundo possível” surgiria da auto-organização das entidades e movimentos da sociedade civil que se colocassem como objectivo o combate à globalização capitalista. Embora a ideia fosse muito apelativa e gerasse inclusive algumas eficientes redes de resistência no campo popular e um novo espírito de enfrentamento contra as medidas capitalistas mais lesivas, na realidade não fez surgir um projecto alternativo global capaz de levar mais longe tais avanços. Nem governos nem movimentos populares apresentaram alternativas ao sistema hegemonizado pelo capital, perdendo assim a oportunidade histórica proporcionada pela presente crise.

RUMOS DA HISTÓRIA EM ABERTO

O crescimento na América Latina de uma série de governos progressistas que batem  pé ao domínio norte-americano foi talvez a ilustração mais óbvia de que as receitas autonomistas de Porto Alegre falharam pela simples razão de que não podem deixar de se apoiar em fenómenos mais amplos e complexos. Com efeito, se é verdade que estes governos progressistas não teriam visto a luz do dia se não se apoiassem num forte desejo popular de emancipação política contra um poder imperial que asfixia todas as autonomias, é ainda mais verdade que nenhum movimento social se pode exprimir com mais pujança do que aquele que encontra pelo menos alguma representação política ao nível nacional e internacional.

As duas sinergias parecem ter-se reconhecido mutuamente no Fórum do ano passado, que deu primazia e protagonismo a chefes de Estado latino-americanos como Lula, Hugo Chavez, Evo Morales Rafael Correa. A opção destes pela integração regional e contra os tratados de comércio livre – estes de cariz neoliberal e fomentadores da dependência – estacou as sucessivas crises económicas da década anterior. Só que uma e outra se ficam a meio caminho e não resolvem o impasse: o poder político não inverte de uma forma drástica a favor do povo a distribuição da riqueza, a justiça social, a posse da terra e dos recursos naturais, mantendo-se o enorme fosso entre ricos e pobres; por sua vez, as redes sociais não desembocam em formas superiores de luta popular porque não detêm o poder político.

Além disso, no plano internacional, há um factor muito agravante: perante este ascenso de resistências, mantém-se e reforça-se a ameaça norte-americana, agora com a táctica do estabelecimento de novas bases militares cercando as zonas com pretensões emancipadoras (na Colômbia, Panamá, ilhas de Aruba e Curaçao e agora Honduras, depois de aceitar o golpe de Estado que depôs Manuel Zelaya, sem falar dos porta-aviões e navios de guerra da 4ª Frota).

Com sinais simultaneamente positivos e negativos, os rumos da história continuam em aberto. Um novo mundo só será possível se os povos e as suas organizações de base compreenderem que, com o derrube do sistema dominante, nada têm a perder e tudo a ganhar. Será que o Fórum Social Mundial foi capaz de tirar essa conclusão?

VOZES DE ALERTA

Na avaliação do movimento altermundista, pelo menos alguns dos presentes disseram verdades que era preciso todos ouvirem.

Para Paulo Vizentini, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mesmo que a esquerda diga que outro mundo é possível, ela não ainda sabe muito bem que mundo é esse, nem como chegar lá.  “Há uma oportunidade que está aberta e da qual não soubemos tirar o devido proveito. O mais sério é a incapacidade de articular uma resposta política à crise económica internacional. Não houve uma resposta tão forte quanto era necessário. A esquerda ainda age muito na resistência, sem ocupar espaços que são abertos. Há um sistema que de certa forma está falindo, mas consegue sobreviver face à ausência de uma posição mais contundente.

“Do ponto de vista do padrão produtivo, do conceito de desenvolvimento e de progresso, os governos tidos como progressistas da América Latina, que chegaram ao poder com um projecto de mudança, que eram uma expressão de resistência a essa forma de desenvolvimento, não alteraram nada, e alguns ainda aprofundaram e acentuaram este padrão civilizatório na mesma direcção”, disse o investigador venezuelano Edgardo Lander, da Universidade Central da Venezuela. “E, na Venezuela, apesar dos avanços no debate sobre a superação do capitalismo, a economia do país é mais dependente do petróleo na gestão Chávez do que era há dez anos.” E concluiu: “O capitalismo, como sistema global, é incompatível com a preservação da vida. Hoje vivemos uma exigência radical de reverter essa lógica de crescimento e promover uma radical redistribuição do acesso dos seres humanos aos bens comuns. No entanto, a sociedade capitalista conseguiu a incrível globalização da subjectividade, da consolidação no imaginário da realização da vida pelo consumo. Este padrão individualista de consumo e de produção do conhecimento está a ponto de ganhar a batalha final”.

“Esta decadência do capitalismo é relativa, lenta, sem que surja no horizonte uma alternativa. E o capitalismo não terminará se não houver uma alternativa”, afirmou por seu lado Emir Sader, do CLACSO (Conselho Latino-americano de Ciências Sociais).

O sociólogo Emir Sader foi mais explícito: “Não podemos nos limitar a debater questões sociais. Quem quiser discutir superação do capitalismo sem discutir o Estado que queremos estará girando em falso. A resistência eterna é o caminho da derrota, e o Fórum tem que se abrir para este processo senão ficará para trás. Tem que se reciclar e aderir a esta dinâmica”. Resta agora saber, uma vez terminada esta reflexão, que rumo tomarão os movimentos inseridos no Fórum.

 
 
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