Estreou em 2 de outubro, em São Paulo, o filme "Salve Geral", de Sérgio Rezende. Trata-se de um filme de ação ambientado na cidade de São Paulo que, usando recursos ficcionais, dá uma visão panorâmica da organização criminosa PCC, que aterrorizou a cidade nos dias de maio de 2006, e da não menos criminosa e corrupta polícia que, em ação desvairada de vingança, assassinou centenas de jovens na periferia.
Segue descrição sucinta dos acontecimentos retirada da wikipédia:
"Na noite de 12 de maio foi desencadeada a maior onda de violência contra forças de segurança e alguns alvos civis que se tem notícia na história do Brasil, com origem no estado de São Paulo. No dia 14, o ataque já havia se espalhado por outros estados do país, como Espírito, Paraná e Minas Gerais. Os ataques tomaram uma repercussão gigantesca na mídia brasileira, que somados à falta de informações por parte do governo de São Paulo e ao enorme sensacionalismo da imprensa, além de vários boatos infundados, acabaram por causar pânico geral e clima de terrorismo na população, principalmente na segunda-feira. Os atentados foram destaque na mídia internacional durante os dias do ocorrido. O governador do estado de São Paulo, Cláudio Lembo, foi duramente criticado pela imprensa pela demora na resposta, falta de comunicação entre as forças policias, falta de informação à mídia e à população em geral e gerenciamento da crise."
No dia da estreia do filme realizou-se uma manifestação em frente ao cinema de shopping organizada pelos familiares, amigos e amigas das vítimas da polícia quando foram distribuídos materiais, cujo texto inicial segue abaixo:
"Nós, familiares, amigos e amigas das vítimas dos ataques da polícia durante uma das maiores chacinas da história brasileira, os 'Crimes de Maio' de 2006, não fomos ouvidos durante a produção deste filme hollywoodiano que hoje é lançado sobre a nossa história: 'Salve Geral'. Não fomos consultados nem convidados pra mais essa festa que os homens armaram pra nos convencer... Viemos contar nossa história real, que também daria um filme...
Há pouco mais de três anos, o chamado 'Estado democrático de Direito', por meio de seus agentes policiais e paramilitares, promoveu um dos mais vergonhosos escândalos da história brasileira. Durante o mês de maio de 2006, em uma suposta resposta ao que se chamou na imprensa de 'ataques do PCC', foram assassinadas no mínimo 493 pessoas, entre mortos e desaparecidos. Sendo que a imensa maioria delas - mais de 400 jovens negros, afro-indígenas-descendentes e pobres - executados sumariamente pela polícia militar do estado de São Paulo. Somos centenas de mães, familiares e amigos que tivemos nossos entes queridos assassinados covardemente, e até hoje seguimos sem qualquer satisfação por parte do Estado brasileiro: os casos permanecem arquivados sem investigação correta para busca da Verdade dos fatos; sem Julgamentos dos verdadeiros culpados (os agentes do Estado brasileiro); sem qualquer proteção, indenização ou reparação por parte do Estado que nos tirou os nossos jovens. Um Estado que ainda insiste em nos sequestrar também o sentimento de Justiça!"
A questão que se coloca de imediato é se o filme, que utiliza a linguagem hollywoodiana, como foi denunciado no manifesto, é um intrumento eficaz de denúncia e fator de conscientização dos expectadores ou apenas entretenimento para os frequentadores dos cinemas de shoppings "curtirem" as ações espetaculares comendo tranquilamente suas pipocas e saindo satisfeitos após terem visto muita violência e sangue derramado. Eu diria que, contraditoriamente, o filme contempla os dois extremos.
Contando a história de Lúcia (Andréia Beltrão), uma viúva de classe média que sonha em tirar o filho Rafael (Lee Thalor), de 18 anos, da prisão, o diretor nos envolve numa teia melodramática muito pouco verossímel, com uma direção de atores que, muitas vezes, beira à chanchada, como é o caso da personagem da advogada Ruiva (Denise Weinberg) em Foz do Iguaçu. Aliás essa personagem histriônica, que deveria ser dramática, faz rir a plateia até na hora de sua morte. O envolvimento de Lúcia com o líder do Comando, o Professor (Bruno Perillo), que é o ápice da tranformação psicológica da professora, nos mostra um estupro aceito de forma tranquila e passiva. O diretor não foi capaz de nos remeter a nenhum conflito interno, fazendo com que a personagem tenha um percurso retilíneo nessa sua escalada de abnegação na luta pela libertação do filho.
Quanto ao desenvolvimento da ação propriamente dita, o filme contém cenas "eletrizantes" de perseguições e loucas corridas de automóveis, bandidos cruéis e policiais cínicos. Enfim, contém todos os ingredientes de milhares de outros filmes a que estamos sujeitos ao bombardeio cotidianamente. Portanto, pouco acrescenta em termos artísticos ao que já estamos saturados de consumir.
Quais seriam então as qualidades do filme? Considero que da metade para o fim o diretor Sérgio Rezende conseguiu delinear um retrato muito verdadeiro da polícia paulista. Mostrando seus métodos de ação à margem da lei, como na inserção, no filme, de um episódio que na vida real aconteceu em outra ocasião: a cilada que a polícia armou para chacinar os bandidos, usando um informante em situação de desespero. Mostrando os policiais executando civis na calada da noite como se estivessem se divertindo: o policial após executar dois jovens exclama: "A noite ainda é uma criança" o que deixa entrever uma madrugada de chacinas. Mostrando a corrupção do aparelho policial, no episódio da soltura de Rafael. Enfim, nas negociações entre bandidos e policiais apresentadas no filme vemos que eles se tratam de igual para igual, ou seja, são duas faces da mesma moeda.
Sérgio Rezende realizou, recentemente, o filme "Zuzu Angel" otimamente interpretado por Patrícia Pillar. De maneira mais sóbria do que neste seu último filme, creio que ele criou uma obra de denúncia da violência do Estado brasileiro (nesse caso, ambientado no período da Ditadura Militar) muito mais eficaz, dada a verossimilhança e a densidade da personagem principal, que nunca resvala para a caricatura como a personagem Lúcia, interpretada pela Andréia Beltrão. A opção pelo espetáculo fez decair em muito sua obra. 
Más información:
Si quieres contribuir a que Kaos en la Red pueda seguir publicando artículos como este, puedes hacer tu donación en:
| Paypal (seguro y permite diferentes formas de pago) |
Microdonación de 2 euros
| Donación de importe libre
|