Desmond Travers foi um dos quatro membros da missão de investigação da ONU sobre a guerra contra Gaza, de que resultou o controverso Relatório Goldstone. Travers é um coronel aposentado do Exército das Forças de Defesa da Irlanda. O seu último cargo foi como comandante do respectivo Colégio Militar. Comandou diversas missões de paz da ONU e da União Europeia. Falei recentemente com ele por telefone, sobre o relatório.
Ficou surpreendido com as críticas ao relatório?
Houve uma série de críticas, mesmo antes do relatório sair, principalmente contra indivíduos, e especialmente contra o juiz Richard Goldstone. Portanto, não fomos surpreendidos pela condenação quando o relatório foi publicado, excepto em relação à intensidade e a agressividade dos ataques pessoais. O juiz Goldstone convidou publicamente os críticos, especialmente os do governo dos EUA, a apresentarem provas materiais de declarações inexactas ou incorrectas. Mas não houve nenhuma crítica credível ao relatório nem à informação nele contida.
Douglas Griffiths, o representante americano no Conselho de Direitos Humanos, disse: "Enquanto o juiz Goldstone reconheceu os crimes do Hamas, ele não examinou suficientemente a dificuldades da resposta de Israel em enfrentar este tipo de inimigo, neste ambiente." Isso é uma crítica justa?
Eu era um soldado com 42 anos de serviço e rejeito esta crítica, que parece destinada a desculpar a violação israelita das leis de guerra. Como coronel do exército irlandês, aposentado em 2001, que serviu em zonas de guerra em Chipre, Líbano, Bósnia e Croácia, não subestimo o desafio do combate em áreas edificadas. No entanto, os exércitos nunca antes tiveram a capacidade tecnológica que têm hoje para fazer a guerra sem infligir danos colaterais.
Qual a sua opinião sobre a reacção dos EUA relativamente ao relatório?
A Administração Obama disse que Israel deve levar a cabo uma investigação sobre as suas acções. Esta é uma declaração extremamente importante. Na opinião da missão, a mensagem central do relatório é que tem que haver um fim à impunidade de quem comete crimes de guerra.
Os críticos também disseram que o Hamas tem msturado deliberadamente os seus combatentes entre os civis, o que aumentou o número de vítimas civis. Vocês acham que é o caso?
Nós não encontramos nenhuma evidência de que o Hamas tenha usado civis como escudos humanos. Esperava encontrar essa prova, mas não encontrei. Também não se encontraram evidências de que as mesquitas tenham sido utilizadas para armazenar munições. Essas acusações reflectem as percepções ocidentais de que o Islão é uma religião violenta. Gaza é densamente povoada, com um labirinto de barracas improvisadas e um sistema de túneis e bunkers. Se eu fosse um terrorista do Hamas, o último lugar em que guardaria as munições seria numa mesquita. Não é seguro, é muito visível, e provavelmente seria um alvo prioritário dos israelitas. Existem lugares muito melhores para guardar as munições. Nós investigámos duas mesquitas destruídas. Numa delas os fiéis foram mortos, e não encontrámos nenhuma provas de terem sido usadas para outra fim senão como lugar de oração.
Existe uma noção sinistra e insensata entre certos defensores da guerra de contra-insurgência, que neste tipo de guerras é inevitável a morte de civis. Se um Estado legitima uma guerra que   não faz distinção entre civis combatentes, isto favorece os insurgentes. Os cadáveres são a água do moinho dos insurgentes: se os mortos estão do seu lado, representam uma vitória; se os mortos estão do lado deles, então eles são mártires.
Qual é sua opinião sobre a alegação das autoridades israelitas de que as IDF (armas “inteligentes”) é o mais "moral" exército do mundo?
Dadas as tácticas, as armas utilizadas e os ataques indiscriminados, penso que esta é uma alegação muito duvidosa.
Que outros assuntos acha que devem ser abordados?
Ficámos perturbados pela letalidade e toxicidade das armas usadas na Faixa de Gaza. Algumas das quais vindas dos arsenais do Ocidente do tempo da Guerra Fria, como as bombas do fósforo branco, que só num ataque incineraram 14 pessoas, incluindo várias crianças; dardos pequenos que são concebidos para rolar ao entrar na carne humana, causando o máximo de danos. São uma violação clara da Convenção de Genebra; os estilhaços de tungsténio são altamente cancerígenos, pois contêm esta substância em pó. Existe também um cocktail de outras munições problemáticas, suspeitas de terem sido utilizadas.
Há uma série de questões que precisam ser abordadas no período pós-conflito em Gaza. A terra está a morrer. Há depósitos tóxicos em resultado do uso dessa munições. Existem sérios problemas com a água, nomeadamente o seu esgotamento e contaminação. O nível de nitratos nos terrenos agrícolas é elevado, e são especialmente perigosos para as crianças. Se estas questões não forem abordadas, Gaza pode mesmo tornar-se num território não habitável segundo as normas da Organização Mundial da Saúde.
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