Um instante da longa entrevista com Gonzalo Gómez Freire
Coincidindo com a sua presença na Galiza, tivemos a sorte de conhecer o co-fundador e membro da equipa de publicaçom do portal bolivariano Aporrea, principal expoente comunicativo do movimento popular venezuelano. Gonzalo Gómez Freire, filho de galegos emigrados ao grande país sul-americano, surpreendeu-nos com o seu correcto uso oral do galego, idioma em que se desenvolveu esta extensa conversa com Maurício Castro.
Nela, o companheiro Gonzalo falou-nos das suas origens galegas, da realidade actual do processo revolucionário venezuelano e, em especial, do ámbito da comunicaçom como peça desse processo que, para ele, deve conduzir para a definitiva ruptura com o capitalismo.
Reproduzimos integralmente o conteúdo da entrevista, achando que toda ela será de grande interesse para os nossos leitores e leitoras. 
Qual é o teu cargo e qual a tua funçom no portal Aporrea? 
Eu fum um dos fundadores de Aporrea, a 14 de Maio do ano 2002, depois de ser superado o golpe de estado. Fago parte da equipa publicadora deste espaço de articulaçom do movimento popular que foi criado para enfrentar o golpe que se via vir. 
O projecto é entom anterior ao golpe de estado... 
Sim, aparece como organismo de expressom de um conjunto de organizaçons populares que se mobilizárom para enfrentar essa situaçom e que depois do 13 de Abril, quando afortunadamente é derrubado o breve governo de facto de Carmona e se recupera o poder para o presidente Chávez, demo-nos à tarefa de promover a realizaçom de um encontro nacional de organizaçons populares do país, em Setembro de 2002, e Aporrea foi o portal de publicaçom dos textos do encontro, umha espécie de Congresso, de debate e discussom em torno das experiências e perspectivas da Revoluçom Bolivariana.
De carácter nacional ou local? 
Fundamentalmente, das organizaçons populares de Caracas. Depois, Aporrea despreende-se da sua origem, pois a Assembleia Popular Revolucionária era um organismo temporário, para enfrentar umha situaçom. De facto, também noutras ocasions voltárom a formar-se articulaçons populares, por exemplo, aquando da paralisaçom e sabotagem petroleira, nos anos 2002 e 2003.
As frentes de resposta som, portanto, pontuais, mas a página web Aporrea mantivo-se, convertendo-se numha espécie de agência de notícias e espaço alternativo que começou a ser utilizada polas pessoas ligadas ao processo revolucionário. Aí aderírom pessoas de muitos lugares do país e também de fora. O fundador, comigo, de Aporrea, foi Martín Sánchez, engenheiro informático que estava fora do país e que quijo contribuir fazendo um site de denúncia contra o golpe de estado e ajudar a organizar a resistência. Mas nom deu tempo, porque o povo se mobilizou com muita mais rapidez do que nós.
Que exista um galego à frente de umha iniciativa popular venezuelana como esta é puro acaso, ou responde à presença significativa de compatriotas nossos nesse país e a um compromisso colectivo com a Revoluçom em curso?
Eu nom podo explicar Aporrea pola minha relaçom com a Galiza, mas sim podo falar de umha relaçom da Galiza com o meu processo de formaçom, que me leva a poder estar em iniciativas como esta. De algum jeito, através das conversas com meu pai, com as pessoas da emigraçom galega que havia em torno dele, como Celso Emílio Ferreiro, nos anos 70, muitos dos quais eram portadores da noçom e da mensagem galeguista influírom na minha formaçom política e fam parte das minhas raízes, para além de eu ser filho de galegos.
Isso está no germe da minha sensibilidade e da formaçom dos meus primeiros conceitos ideológicos, pola via do meu pai e do ambiente dos galegos progressistas colados à ideia da Galiza como povo, como naçom. Acho que isso tivo, sim, umha influência para o caminho que eu tomei posteriormente.
Digo-che isto porque já sabes que no exílio americano o melhor de toda umha geraçom de galegos e de galegas acabou recalando como conseqüência da repressom que se desatou no Estado espanhol durante a ditadura. A Venezuela também acolheu umha parte dessa geraçom, como a Argentina, o Uruguai, o México...
Sim, eu podo lembrar como meu pai falava da Guerra Civil, dos contactos e amizades dele. Lembro umha figura significativa para a Galiza, como foi Pepe Velo, que depois ficaria famoso polo assunto do Santa Maria. Meu pai deixou escritas umhas memórias que, Renascer de esperanças, memórias de Antón Dopazo, publicadas na Internet, na secçom cultural de Aporrea, que se chama Encontrarte. Nelas, conta muita cousa que tem a ver com a emigraçom galega junto às suas experiências. Isso todo é parte do que eu levo dentro de mim, com certeza.
Fala-nos agora um pouco de qual é a situaçom do processo revolucionário, sobretodo depois das últimas eleiçons, em que se reafirmoua vitória do movimento Bolivariano mas, paradoxalmente, a oposiçom burguesa conseguiu algumhas vitórias parciais importantes, como na própria capital. Que leitura fás desses resultados e que perspectivas se abrem para o movimento popular?
Sim, coincido nisso que estás a dizer-me, mas, antes de entrarmos no tema, queria ainda falar-che brevemente de que na Venezuela há galegos que tenhem um grande compromisso com o processo revolucionário bolivariano, e que venhem já desde o início. É o caso de Farruco Sesto Novás, que foi ministro da Cultura e agora está em Vivenda e que, coincidindo com a presença de Celso Emílio na Venezuela, começou a escrever poemas em galego e promoveu actividades culturais. Depois, estivo na fundaçom de organizaçons políticas importantes na Venezuela. Tivemos também, durante algum tempo, umha ministra do Trabalho, Maria Cristina Iglésias, de origem galega, que hoje integra a Direcçom Nacional do PSUV. Portanto, há uns rastos e umha fidelidade às origens.
Sobre a situaçom da Venezuela hoje, podemos dizer que os resultados eleitorais reflectírom umha recuperaçom do voto do chavismo em relaçom à votaçom da reforma constitucional. Podemos falar de mais de 80% de controlo das alcaldias e de quase todas as governaçons, mas houvo uns casos de relevo em que a oposiçom conseguiu introduzir umhas cunhas de significaçom estratégica. É o caso da alcaldia metropolitana, que abrange Caracas, a capital, ainda que haja outros concelhos, como o Município Libertador, que ficou em maos do chavismo, com Jorge Rodríguez. Também o estado Miranda, o de Carabobo (industrial manufactureiro), Tachira, Zúlia (petroleiro)... a oposiçom sai derrotada em conjunto, mas consegue conquistas, que representam um perigo para o processo revolucionário.
Coloca-se um desafio porque conseguírom concentrar o voto das zonas onde está a maior parte da populaçom de classe média e classe média-alta, sectores mais ou menos abastados, e que som muito refractários ao governo; arrastárom umha parte do voto popular, impedindo, por exemplo, que Aristóbulo Istúriz fosse eleito, apesar da vitória bolivariana em áreas populares como Libertador.
Os meios da direita dim que estám a conseguir penetrar com o seu discurso em zonas tradicionais trabalhadoras, mudando o discurso duro anterior e assumindo parte da linguagem chavista. O que há de certo nisso?
Eles tentam aparentar isso, mas os votos da direita nom aumentárom em termos absolutos. Tenhem um tope que nom ultrapassam, mas sim aconteceu que nom todo o povo chavista foi votar com o entusiasmo de, por exemplo, as eleiçons presidenciais de 2006. É mais um fenómeno de abstençom alta no chavismo, de pessoas que nom querem que Chávez perda o governo, que valorizam os benefícios obtidos, mas que também podem ter certo descontentamento ou certo desencanto por cousas que nom estám a ser resolvidas.
É mais isso do que o aumento do voto de direita nas classes populares, que nom aumentou significativamente. O desafio é que o conjunto do povo se manifeste, para o qual é necessário um sinal da dirigência no sentido de assumir que irá polas mudanças de maneira conseqüente. Há que atacar problemas que ainda persistem na Venezuela, que tenhem a ver com o burocratismo, com a corrupçom, com dificuldades na gestom pública... porque as pessoas podem estár a beneficiar-se de melhorias gerais no nível da saúde, da educaçom, de serviços sociais, da queda importante do índice da pobreza e de mortalidade, da subida do índice de desenvolvimento humano, mas se houver problemas, por exemplo, no tratamento dos resíduos urbanos, concentraçom de lixo e outros problemas imediatos podem fazer esquecer outros benefícios que as pessoas estám a afazer-se a ter.
Há ainda respostas de advertência e de castigo para alguns sectores da dirigência bolivariana.
Achas, Gonzalo, que essa leitura que tu fás é partilhada pola dirigência e que haverá umha rectificaçom no sentido positivo?
Toda revoluçom é complexa e contraditória, nada é redondinho e perfeito. Na unidade, há também pugnas que fam parte das expressons da luita de classes, que nom se dá só entre a oposiçom da direita e o movimento bolivariano ou a esquerda em geral. Dentro do processo há sectores com diferentes pontos de vista, diferente origem e composiçom social, diferentes interesses... e isso é normal. É, por outra parte, um prodígio que sectores militares tenham sido permeados por camadas procedentes do povo, dos estratos pobres, e que também ali ficassem as ideias da esquerda anti-imperialista, produzindo-se a insurgência do movimento bolivariano, liderado por Chávez. Isso nom é comum. Se, além disso, quigermos que hasteiem as bandeiras do marxismo e umha concepçom ideológica acabada, socialista e revolucionária, isso é esperar de mais. Tem havido um processo paulatino, com saltos, e que está relacionado com o histórico confronto com a direita e com o imperialismo, que vai levando a tomar posiçom. 
Em definitivo, considero que as mudanças vam depender nom tanto da dirigência como de nós, das organizaçons sociais e dos organismos de poder popular que estám a ser desenvolvidos, as organizaçons operárias, camponesas, a juventude... na medida que se produzir mobilizaçom para enfrentar a direita e o imperialismo, a revoluçom vai ir radicalizando-se e poderá avançar-se para definiçons mais precisas.
Pensas que também a nível continental podemos falar nesses termos?
Sim, considero que é um processo próprio e interno da América Latina. O que acontece na Bolívia ou no Equador pode ser alimentado polo que acontece na Venezuela, mas tem as suas próprias raízes. Todo isto combina-se, fortalece-se mutuamente, e a Venezuela é hoje umha referência continental de grande impacto. Os povos estám a avançar, a mobilizar-se e a confrontar os governos mais de direita e conservadores. Há luitas no Peru, na Colômbia, cujo regime assassina constantemente dirigentes sindicais, onde há paramilitarismo, umha espécie de subestaçom do império. 
Além da persistência da Revoluçom Cubana, dos processos que se estám a verificar na América Central, na Bolívia, no Equador, outros governos mais moderados, mas que ajudam a estabelecer outra regras e outras correlaçons de forças e ganham espaços de soberania face à dominaçom das transnacionais e a dominaçom do imperialismo... as regras movem-se e a cousa avança na América Latina. 
Na crise internacional do capitalismo, vê-se mais clara a alternativa do socialismo, ou polo menos o capitalismo como algo que nom dá para mais. Isto também favorece o avanço do processo revolucionário, entrando assim num quadro em que os povos vam ver-se forçados a mobilizar-se para defender as suas conquistas, em que os espaços de soberania terám que ser demarcados de maneira mais concreta, e com um imperialismo que está em dificuldades. Se nom avançamos para o estabelecimento de governos dos trabalhadores, dos camponeses, das classes populares, anti-imperialistas que coloquem o socialismo como alternativa de sociedade, o que pode vir é a barbárie mais absoluta, mas nessa luita é que estamos...
Na Europa existe um discurso mui forte no sentido de que Hugo Chávez estivesse a hegemonizar a comunicaçom, a calar a boca à oposiçom, mas sabemos que a hegemonia económica continua em maos dos de sempre. Por outra parte, estám a abrir-se espaços comunicativos de base como o que Aporrea representa. Fala-nos da situaçom comunicativa na Venezuela.
Na realidade, a Venezuela é ainda um país capitalista. O Estado é herdeiro da Quarta República e sectores da oligarquia tenhem ainda hoje importantes posiçons lá dentro, controlam mais de 80% dos media, da rádio, da TV, da imprensa. A recuperaçom do sinal de Rádio Caracas TV ao nom ser-lhe renovada a concessom estatal por a terem utilizado para promover a derrocada violenta do governo legítimo nom implicou umha mudança substancial. 
Os meios alternativos achamos que é necessária umha reforma da Lei de Telecomunicaçons, pois ainda hoje nom há limites. Nós pensamos que, para começar e por agora, deve entregar-se um terço dos meios nas maos das comunidades, das organizaçon sociais e dos organismos do poder popular. 
Hoje nom há quotas e mais de dous terços da comunicaçom estám em maos oligarcas, ficando 15% a repartir entre o Estado e a comunicaçom comunitária, que nom vai além dos 3%.
Isto é bem significativo, pois há mais de 300 meios comunitários alternativos, rádios populares estabelecidas assemblearmente, onde há cabimento para a vizinhança e as suas expressons sociais nos bairros. Essa é umha conquista muito relevante, mas é ainda mui pouco para a perspectiva de umha comunicaçom do socialismo. Temos que conquistar um sistema público em maos das comunidades, dos trabalhadores dos meios de comunicaçom, onde estejam presentes as expressons do povo no seu conjunto, incluídos os indígenas. Isso, mesmo pertencendo ao Estado, deve ficar sob controlo social. Isso pode ser feito na Venezuela e isso é o que propomos, a partir da modificaçom da Lei de Telecomunicaçons, para irmos ganhando influência e redistribuir o espaço radioeléctrico.
Tal como há um latifundismo no campo, há também um latifundismo no espaço radioeléctrico, com os seus próprios latifundiários, açambarcadores de espaços comunicativos para minorias. Há famílias de banqueiros com televisons regionais e nacionais, enquanto as organizaçons de trabalhadores nom tenhem. É umha desigualdade social intolerável, pois a comunicaçom nom pode ser só mercadoria: é um direito humano. Nom deve servir para estabelecer comércio e explorar a publicidade nem infundir a ideologia dos ricos. Deve estar ao serviço de todo o povo.
Na Venezuela de hoje só se tomárom medidas contra meios que promovêrom crimes e massacres, Radio Caracas TV, deixando de ser-lhe renovada umha concessom, simplesmente. Qualquer pessoa pode ver na Venezuela que se permite a oposiçom ameaçar de morte o presidente, cousa inimaginável em qualquer outro país. A liberdade de expressom que existe é extraordinária em relaçom a outros países.
O vosso portal é um dos mais visitados a nível mundial, no ámbito das publicaçons alternativas. Que papel aspirades a cumprir a partir de agora?
Nós, na realidade, nom escolhemos o nosso papel. Fôrom as usuárias e os usuários que o figérom, as cousas fôrom acontecendo e nós fomos administrando o que acontecia, fôrom aparecendo reporteiros que narravam o que acontecia nas manifestaçons, por exemplo, a violência da polícia da oposiçom... isso começou a aparecer no nosso site, e nós administramos essa dinámica do processo revolucionário no terreno dos meios alternativos. 
Nom temos umha equipa centralizada que tome decisons sobre a publicaçom. Todo o enquadrado no processo revolucionário é publicado, sob condiçons muito elementares, como o sustento das denúncias, umha linguagem tolerável e a responsabilidade polo que se di.
Trabalhadores, camponeses, indígenas... assumem Aporrea como ferramenta para informar sobre as suas luitas, fazendo informaçom em primeira pessoa, constituindo-se em agência de notícias do próprio movimento. Nós recolhemos isso e publicamo-lo. Na medida que o movimento popular se vaia fortalecendo, irám surgindo outros meios de comunicaçom de cada movimento. Nom queremos ser um ente profissionalizado, mas servir ao movimento como canal de expressom e comunicaçom, nos termos que as pessoas determinarem de maneira democrática. 
Há, contodo, críticas revolucionárias e nós damos cabimento ao debate, pois sem debate nom há dinámica. Só nom damos espaço aos sectores ligados à oligarquia, que já tenhem os seus meios. Nós somos independentes do governo e funcionamos de maneira autogerida, sem nos supeditarmos a ninguém.
Agradecemos ao companheiro Gonzalo que nos tenha dedicado estes minutos para dar a conhecer no seio do povo trabalhador galego essa experiência comunicativa alternativa que é Aporrea, e transmitimos-che o orgulho que para nós constitui a presença de um galego, de origem galeguista e progressista, à frente de um projecto como este. Temos certeza que no futuro continuaremos a coincidir na luita comum pola derrota do capitalismo e a vitória do socialismo.
Eu quero mandar umha mensagem para que as organizaçons progressistas e anti-imperialistas podam encontrar em Aporrea um meio de expressom nom só na solidariedade com a luita bolivariana, mas também para darem a conhecer as luitas que existem na Galiza.
  http://www.primeiralinha.org
  Traducción al castellano
  Coincidiendo con su presencia en Galiza, tuvimos la suerte de conocer al co-fundador y miembro del equipo de publicación del portal bolivariano Aporrea, principal exponente comunicativo del movimiento popular venezolano. Gonzalo Gómez Freire, hijo de galegos emigrados al grande país sudamericano, nos sorprendió con su correcto uso oral del galego, idioma em que se desarrolló esta extensa conversación con Maurício Castro.
En ella, el compañero Gonzalo nos habló de sus orígenes galegos, de la realidad actual del proceso revolucionario venezolano y, en especial, del ámbito de la comunicación como pieza de ese proceso que, para él, debe conducir hacia la definitiva ruptura con el capitalismo.
Reproducimos íntegramente el contenido de la entrevista, considerando que toda ella será de gran interés para nuestros lectores y lectoras.
¿Cuál es tu cargo y cuál tu función en el portal Aporrea?
Yo fui uno de los fundadores de Aporrea, el 14 de mayo del año 2002, después de ser superado el golpe de estado. Formo parte del equipo publicador de este espacio de articulación del movimiento popular que fue creado para hacer frente al golpe que se veía venir.
El proyecto es, entonces, anterior al golpe de estado...
Sí, aparece como organismo de expresión de un conjunto de organizaciones populares que se movilizaron para enfrentar esa situación y que, después del 13 de abril, cuando afortunadamente es derribado el breve gobierno de facto de Carmona y se recupera el poder para el presidente Chávez, nos dedicamos a la tarea de promover la realización de un encuentro nacional de organizaciones populares del país, en setiembre de 2002, y Aporrea fue el portal de publicación de los textos del encuentro, una especie de Congreso, de debate y discusión en torno a las experiencias y perspectivas de la Revolución Bolivariana.
¿De carácter nacional o local?
Fundamentalmente, de las organizaciones populares de Caracas. Después, Aporrea se desprende de su origen, pues la Asamblea Popular Revolucionaria era un organismo temporal, para enfrentar una situación. De hecho, también en otras ocasiones volvieron a formarse articulaciones populares, por ejemplo, cuando sucedió el paro y sabotaje petrolero, en los años 2002 y 2003.
Los frentes de respuesta son, por lo tanto, puntuales, pero la página web de Aporrea se mantuvo, convirtiéndose en una especie de agencia de noticias y espacio alternativo que empezó a ser utilizada por las personas vinculadas con el proceso revolucionario. Entonces se sumaron personas de muchos lugares del país y también de fuera. El fundador, conmigo, de Aporrea, fue Martín Sánchez, ingeniero informático que estaba fuera del país y que quiso contribuír haciendo un sitio de denuncia contra el golpe de estado y ayudar a organizar la resistencia. Pero no dio tiempo, porque el pueblo se movilizó con mucha más rapidez que nosotros.
Que exista un galego al frente de una iniciativa popular venezolana como esta, ¿es casualidad, o responde a la presencia significativa de compatriotas nuestros en ese país y a un compromiso colectivo con la Revolución en curso?
Yo no puedo explicar Aporrea por mi relación con Galiza, pero sí puedo hablar d euna relación de Galiza con mi proceso de formación, que me lleva a poder estar en iniciativas como esta. De alguna manera, a través de las conversaciones con mi padre, con la gente de la emigración galega que había en torno a él, como Celso Emílio Ferreiro, de los años 70, muchos de los cuales eran portadores de la noción y del mensaje galeguista influyeron en mi formación política y hacen parte de mis raíces, además de ser yo hijo de galegos.
Eso está en el germen de mi sensibilidad y de la formación de mis primeros conceptos ideológicos, por la vía de mi padre y del ambiente de los galegos progresistas pegados a la idea de Galiza como pueblo, como nación. Creo que eso tuvo, sí, una influencia para el camino que yo tomé posteriormente.
Te digo esto porque ya sabes que en el exilio americano lo mejor de toda una generación de galegos y galegas acabó recalando como consecuencia de la represión que se desató en el Estado español durante la dictadura. Venezuela también acogió una parte de esa generación, como Argentina, Uruguay o México…
Sí, puedo recordar cómo mi padre hablaba de la Guerra Civil, de sus contactos y amistades. Recuerdo una figura significativa para Galiza, como fue Pepe Velo, que después fue famoso por el asunto del Santa María. Mi padre dejé escritas unas memorias, Renacer de esperanzas, memorias de Antón Dopazo, publicadas en Internet, en la sección cultural de Aporrea, que se llama Encontrarte. En ellas, cuenta muchas cosas que tienen que ver con la emigración galega junto a sus experiencias. Todo es parte de lo que llevo dentro de mí, por supuesto.
Háblanos ahora un poco de cuál es la situación del proceso revolucionario, sobre todo después de las últimas elecciones, en que se reafirmo la victória del movimento Bolivariano pero, paradógicamente, la oposición burguesa consiguió algunas victorias parciales importantes, como en la propia capital. ¿Quê lectura haces de esos resultados y qué perspectivas se abren para el movimiento popular?
Sí, coincido en eso que estás diciendo pero, antes de entrar en el tema, querría aún hablarte brevemente de que en Venezuela hay galegos que tienen un gran compromiso con el proceso revolucionario bolivariano, y que viene ya desde el inicio. Es el caso de Farruco Sesto Novás, que fue ministro de Cultura y que ahora está en Vivienda y que, coincidindo con la prsencia de Celso Emílio en Venezuela, empezó a escribir poemas en galego y promovió actividades culturales. Después, estuvo en la fundación de organizaciones políticas importantes en Venezuela. Tuvimos también, durante algún tiempo, a una ministra de Trabajo, María Cristina Iglesias, de origen galego, que hoy integra la Dirección Nacional del PSUV. Por tanto, hay unos rastros y una fidelidade a los orígenes.
Sobre la situación de Venezuela hoy, podemos decir que los resultados electorales reflejaron una recuperación del voto del chavismo en relación con la votación de la reforma constitucional. Podemos hablar de más del 80% de control de las alcaldías y de casi todas las gobernaciones, pero hubo uns casos de relieve en que la oposición consiguió introducir unas cuñas de significación estratégica. Es el caso de la alcaldía metropolitana, que abarca Caracas, la capital, aúnque haya otros ayuntamientos, como el Municipio Libertador, que se quedó en manos del chavismo, con Jorge Rodríguez. También el estado Miranda, el de Carabobo (industrial manufacturero), Tachira, Zulia (petrolero)… la oposición sale derrotada en conjunto, pero consigue conquistas, que representan un peligro para el proceso revolucionario.
Se plantea un desafío porque consiguieron concentrar el voto de las zonas donde está la mayor parte de la población de clase media y clase media-alta, sectores más o menos acomodados, y que son muy contrarios al gobierno; arrastraon una parte del voto popular, impidiendo, por ejemplo, que Aristóbulo Istúriza fuera elegido, a pesar de la victoria bolivariana en áreas populares como Libertador.
Los medios de la derecha dicen que están consiguiendo penetrar con su discurso en zonas tradicionales trabajadoras, cambiando el discurso duro anteiror y asumiendo parte del lenguaje chavista. ¿Qué hay de cierto en eso?
Ellos intentan aparentar eso, pero los votos de la derecha no aumentaron en términos absolutos. Tienen un tope que no superan, pero sí sucedió que no todo el pueblo chavista fue a votar con el entusiasmo de, por ejemplo, las elecciones presidenciales de 2006. és más un fenómeno de abstención alta en el chavismo, de personas que no quieren que Chávez pierda el gobierno, que valoran los beneficios obtenidos, pero que también pueden tener un cierto descontento o desencanto por cosas que no están siendo resueltas.
Es más eso que el aumento del voto de derecha en las clases populares, que no se dio de manera significativa. El reto es que el conjunto del pueblo se manifieste, para lo cual es necesaria una señal de la dirigencia en el sentido de asumir que irá a por los cambios de manera consecuente. Hay que atacar problemas que aún persisten en Venezuela, que tienen que ver con el burocratismo, con la corrupción, con dificultades en la gestión pública… porque la gente puede estar beneficiándose de mejoras generales a nivel de salud, de educación, de servicios sociales, de la caída importante del índice de la pobreza y de la mortalidad, de la subida del índice de desarrollo humano, pero si hay problemas, por ejemplo, en el tratamiento de los residuos urbanos, concentración de basura y otros problemas inmediatos pueden hacer olvidar otros beneficios que la gente está acostumbrándose a tener.
Hay también respuestas de advertencia y de castigo para algunos sectores de la dirigencia bolivariana.
¿Crees, Gonzalo, que esa lectura que tu haces es compartida por la dirigencia y que habrá una rectificación en el sentido positivo?
Toda revolución es compleja y contradictoria, nada es redondito y perfecto. En la unidad, hay también pugnas que forman parte de las expresiones de la lucha de clases, que no se dá sólo entre la oposición de derecha y el movimiento bolivariano o la izquierda en general. Dentro del proceso hay sectores con diferentes puntos de vista, diferente origen y composición social, diferentes intereses… y eso es normal. Es, por otra parte, un prodigio que sectores militares hayan sido permeados por capas procedentes del pueblo, de los estratos pobres, y que también allí se quedasen las ideas de la izquierda anti-imperialista, produciéndose la insurgencia del movimiento bolivarian, liderado por Chávez. Iso no es común. Si, además de eso, queremos que enarbolen las banderas del marxismo y una concepción ideológica acabada, socialista y revolucionaria, eso es esperar demasiado. Ha habido un proceso paulatino, con saltos, y que está relacionado con el histórico enfrentamiento con la derecha y con el imperialismo, que va llevando a tomar posición.
En definitiva, considero que los cambios van a depender no tanto de la dirigencia como de nosotros, de las organizaciones obreras, campesinas, la juventud… en la medida que se produzcan movilizaciones para enfrentar a la derecha e al imperialismo, la revolución va a ir radicalizándose y podrá avanzarse hacia definiciones más precisas.
¿Piensas que también a nivel continental podemos hablar en esos términos?
Sí, considero que es un proceso propio e interno de América Latina. Lo que sucede en Bolivia o en Ecuador puede ser alimentado por lo que sucede en Venezuela, pero tiene sus propias raíces. Todo isto se combina, se fortalece mutuamente, y Venezuela es hoy una referencia continental de gran impacto. Los pueblos están avanzando, movilizándose y enfrentándose con los gobiernos más de derechas y conservadores. Hay luchas en Perú, en Colombia, cuyo régimen asesina constantemente a dirigentes sindicales, donde hay paramilitarismo, una especie de subestación del imperio.
Además de la persistencia de la Revolución Cubana, de los procesos que están dándose en América Central, en Bolivia, en Eucador, otros gobiernos más moderados, pero que ayudan a establecer otras reglas y otras correlaciones de fuerzas y ganan espacios de soberanía frente a la dominación de las transnacionales y la dominación del imperialismo… las reglas se mueven y la cosa avanza en América Latina.
En la crisis internacional del capitalismo, se ve más clara la alternativa del socialismo, o por lo menos el capitalismo como algo que no dá para más. Esto también favorece el avance del proceso revolucionario, entrando así en un marco en que los pueblos van a verse forzados a movilizarse para defender sus conquistas, en que los espacios de soberanía tendrán que ser demarcados de manera más concreta, y con un imperialismo que está en dificultades. Se no avanzamos hacia el establecimiento de gobiernos de los trabajadores, de los compesinos, de las clases populares, antiimperialistas que planteen el socialismo como alternativa de sociedad, lo que puede venir es la barbarie más absoluta, pero es en esa lucha que nos encontramos…
Na crise internacional do capitalismo, vê-se mais clara a alternativa do socialismo, ou polo menos o capitalismo como algo que nom dá para mais. Isto também favorece o avanço do processo revolucionário, entrando assim num quadro em que os povos vam ver-se forçados a mobilizar-se para defender as suas conquistas, em que os espaços de soberania terám que ser demarcados de maneira mais concreta, e com um imperialismo que está em dificuldades. Se nom avançamos para o estabelecimento de governos dos trabalhadores, dos camponeses, das classes populares, antiimperialistas que coloquem o socialismo como alternativa de sociedade, o que pode vir é a barbárie mais absoluta, mas nessa luita é que estamos...
En Europa existe un discurso muy fuerte en el sentido de que Hugo Chávez estuviera a hegemonizar la comunicación, a callar la boca a la oposición, pero sabemos que la hegemonía continúa en manos de los de siempre. Por otra parte, están abriéndose espacios comunicativos de base como el que Aporrea representa. Háblanos de la situación comunicativa en Venezuela.
En realidad, Venezuela es todavía un país capitalista. El Estado es heredero de la Cuarta República y sectores de la oligarquía tienen aún hoje importantes posiciones allá dentro, controlan más del 80% de los media, de la rádio, de la TV, de la prensa. La recuperación de la señal de Radio Caracas TV al no serle renovada la concesión estatal por haberla utilizado para promover el derrocamiento violento del gobierno legítimo no implicó un cambio substancial.
Los medios alternativos creemos que es necesaria una reforma de la Lei de Telecomunicaciones, pues aún hoy no hay límites. Nosotros pensamos que, para comenzar y por ahora, debe entregarse un tercio de los medios en manos de las comunidades, de las organizaciones sociales y de los organismos del poder popular.
Hoy no hay cuotas y más de dos tercios de la comunicación están en manos oligarcas, quedando un 15% para repartir entre el Estado y la comunicación comunitaria, que no va más allá del 3%.
Esto es bastante significativo, pues hay más de 300 medios comunitarios alternativos, radios populares establecidas asambleariamente, donde hay cabida para los vecinos y vecinas, y sus expresiones sociales en los barrios. Esa es una conquista muy relevante, pero es aún muy poco para la perspectiva de una comunicación del socialismo. Tenemos que conquistar un sistema público en manos de las comunidades, de los trabajadores de los medios de comunicación, donde estén presentes las expresiones del pueblo en su conjunto, incluídos los indígenas. Eso, incluso perteneciendo al Estado, debe quedarse bajo control social. Esto puede hacerse en Venezuela y eso es lo que proponemos, a partir de la modificación de la Ley de Telecomunicaciones, para ir ganando influencia y redistribuir el espacio radioeléctrico.
Tal como hay un latifundismo en el campo, hay también un latifundismo en el espacio radioeléctrico, con sus propios latifundistas, acaparadores de espacios comunicativos para minorías. Hay familias de banqueros con televisiones regionales y nacionales, mientras las organizaciones de trabajadores no tienen. Es una desigualdad social intolerable, pues la comunicación no puede ser sólo mercancía: es un derecho humano. No debe servir para establecer comercio y explotar la publicidad, ni infundir la ideología de los ricos. Debe estar al servicio de todo el pueblo.
En la Venezuela de hoy, sólo se tomaron medidas contra medios que promovieron crímenes y masacres, Radio Caracas TV, dejando de serle renovada una concesión, simplemente. Cualquier persona puede ver en Venezuela que se permite a la oposición amenazar de muerte al presidente, cosa inimaginable en cualquer otro país. La libertad de expresión que existe es extraordinaria en relación con otros países.
Vuestro portal es uno de los más visitados a nivel mundial, en el ámbito de las publicaciones alternativas. ¿Qué papel aspirais a cumplir a partir de ahora?
Nosotros, en realidad, no escogemos nuestro papel. Fueron las usuarias y los usuarios quienes lo hicieron, las cosas fueron sucediendo y nosotros fuimos administrando lo que sucedía, fueron aparecindo reporteros que narraban lo que sucedía en las manifstaciones, por ejemplo, la violencia de la policia de la oposición… eso empezó a aparecer en nuestro site, y nosotros administramos esa dinámica del proceso revolucionario en el terreno de los medios alternativos.
No tenemos un equipo centralizado que tome decisiones sobre la publicación. Todo lo enmarcado en el proceso revolucionario es publicado, bajo condiciones muy elementales, como el sustento de las denuncias, un lenguaje tolerable y la responsabilidad sobre lo que se dice.
Trabajadores, campesinos, indígenas... asumen Aporrea como herramienta par ainformar sobre las luchas, haciendo información en primera persona, constituyéndose en agencia de noticais del propio movimiento. Nostros recogemos eso y lo publicamos. En la medida que el movimiento popular se vaya fortalecindo, irán surgindo otros medios de comunicación de cada movimiento. No queremos ser un ente profesionalizado, sino servir al movimiento como canal de expresión y comunicación, en los términos que la gente determine democráticamente.
Hay, aún así, críticas revolucionarias y nosotros damos cabida al debate, pues sin debate no hay dinámica. Únicamente negamos espacio a los sectores vinculados con la oligarquía, que ya tienen sus medios, nosotros somos independientes del gobierno y funcionamos de manera autogestionada, sin supeditarnos a nadie.
Agradecemos al compañero Gonzalo que nos haya dedicado estos minutos par adar a conocer en el seno del pueblo trabajador galego esa experiencia comunicativa alternativa que es Aporrea, y te transmitimos el orgullo que para nós constituye la presencia de un galego, de origen galeguista y progresista, al frente de un proyecto como este. Tenemos certeza de que en el futuro continuaremos coincidiendo en la lucha común por la derrota del capitalismo y la victoria del socialismo.
Yo quiero mandar un mensaje para que las organizaciones progresistasa y antiimperialistas puedan encontrar en Aporrea un medio de expresión no sólo en la solidaridad con la lucha bolivariana, sino también para dar a conocer las luchas que existen en Galiza.
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