O filme "Jean Charles" em exibição em São Paulo é uma ótima oportunidade para que se discutam os meandros criminosos da burocracia estatal e o terrorismo de Estado. Como há muita desinformação a respeito do caso Jean Charles, antes de comentar o filme, reproduzirei trechos de textos da wikipédia e do jornal espanhol El País que poderão ajudar na compreensão da obra.
Texto da wikipédia:
"Jean Charles de Menezes (Gonzaga, 7 de janeiro de 1978 - Londres, 22 de julho de 2005) foi um emigrante brasileiro confundido com um homem-bomba e morto no metrô de Londres com oito tiros à queima-roupa, por forças da unidade armada da Scotland Yard britânica, SO19.
Jean vivia há três anos no sul da capital inglesa e, segundo as autoridades, foi confundido com um terrorista árabe que teria participado dos atentados da véspera, contra ônibus e estações do metrô de Londres. O erro foi admitido pela Scotland Yard, que informou que o brasileiro não tinha nenhuma relação com qualquer grupo terrorista. Segundo ela, o acidente ocorreu porque o brasileiro se recusou a obedecer às ordens de parar, dadas pelas autoridades.
No entanto, as investigações da Comissão Independente de Investigação de Queixas da Polícia (CIIQ, em inglês) revelaram que Ian Blair, chefe da Scotland Yard, tentou impedir que a morte de Jean Charles fosse investigada."
Texto de El País de 19/08/2005:
O chefe da Scotland Yard, Yan Blair, procurou impedir que a Comissão Independente de Investigação de Queixas da Polícia (CIIQ, em inglês) investigasse a morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, de 27 anos, assassinado pela polícia em 22 de julho no metrô de Londres. Após reconhecer o erro, Blair declarou, em 23 de julho, que Menezes vestia um casaco com enchimentos, que fugiu da polícia quando foi abordado e que seu comportamento era suspeito. Os documentos filtrados esta semana pelo canal ITV desmentem essas declarações.
Na mesma manhã em que morreu o eletricista, Ian Blair escreveu aos seus superiores no Ministério do Interior solicitando que a comissão independente não interviesse. A comissão demorou cinco dias para assumir oficialmente o caso. Esse tempo, segundo os advogados da família, era vital para recolher provas que 'podem ter-se perdido'."
Segundo explicou o diretor Henrique Goldman, na pré-estréia do filme em São Paulo, a opção de apresentar, ao contrário do que se poderia esperar, um Jean Charles cheio de malandragens e trambiques, foi no sentido de não santificar o personagem. O objetivo do diretor foi plenamente alcançado com a ótima interpretação de Selton Melo, que nos mostrou um brasileiro cheio de vida e humanidade lutando por sobreviver numa cidade hostil, o que faz aumentar a estupefação e a revolta com seu estúpido assassinato.
Ao mesmo tempo, o filme descreve a vida dos brasileiros em Londres, enfrentando o racismo, as investidas da polícia de imigração e as condições precárias de trabalho. Com cenas de telejornais intercaladas à trama vamos percebendo o clima de terror implementado pela polícia após os ataques que mataram sete pessoas e deixaram mais de 700 feridas, no túnel entre as estações de metrô de Moorgate e Liverpool Streel. Ser estrangeiro tornou-se sinônimo de ser suspeito de terrorismo. A partir daí, se prepara o enredo para o desfecho trágico.
Henrique Goldman, infelizmente, optou por não desenvolver os desdobramentos do assassinato de Jean Charles. Assim, são omitidas as lutas no sentido de denunciar e punir os policiais criminosos, o que se constitui, inclusive, numa injustiça com as parentes e o amigo que moravam com Jean Charles, que são personagens do filme e que, sabe-se, na vida real, levaram uma batalha sem tréguas contra a burocracia kafkaniana empenhada em proteger seus membros.
Esse filme constitui-se na primeira produção conjunta de Brasil e Inglaterra. Não serei simplista de mencionar essa parceria como causa das omissões citadas, mas creio ser importante levantar a lebre no sentido de que os produtores da obra podem ter tido dificuldades políticas para expor todas implicações do crime. Com a palavra o diretor.
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