No início de Maio, e durante mais de uma semana, o Bairro da Bela Vista (Setúbal) foi ocupado militarmente pela PSP. Depois de terem disparado sobre a concentração em homenagem a um morador do bairro (baleado pela GNR no Algarve na sequência de uma perseguição automóvel), os elementos da esquadra da Bela Vista ficaram surpreendidos por a esquadra ter sido apedrejada e baleada. Seguiram-se os carros e contentores do lixo incendiados e as imagens – cada vez mais familiares – de algo semelhante a uma guerrilha urbana. No meio do histerismo habitual, Corpo de intervenção e Grupo de Operações Especiais começaram a patrulhar as ruas do bairro dia e noite, decretaram  um recolher obrigatório e entretiveram-se a deter e revistar todos os moradores “suspeitos”.  Deram-se até ao luxo de se fazer acompanhar de câmaras televisivas, levando até ao nosso domicílio as imagens da sua operação de “pacificação”: brigadas armadas até aos dentes, que se entretinham a apontar as armas a quem passava na rua, a quem fumava um cigarro ou simplesmente conversava à porta da sua casa. Tudo acompanhado dos habituais insultos, humilhações e intimidações, na justa proporção do medo que a revolta transmite à polícia. Nem sequer faltou o estafadíssimo espectro da extrema-esquerda, conspirando na sombra para perturbar a ordem pública e até a SIC deu uma ajudinha, ao identificar e entrevistar o “líder” da revolta que, para surpresa geral, foi preso dois dias depois de ter prestado declarações a uma jornalista.
A violência com que a polícia actua nos bairros pobres não é uma novidade, mas até o mais cínico leitor de jornais ficaria surpreendido com o tratamento mediático de que foi alvo a Bela Vista. Não vamos sequer falar de Sócrates, para quem todas as polícias são boas menos as que investigam o “caso Freeport”. Dos cães que ladram à direita também não se espera melhor e os partidos de esquerda voltaram a ser acusados de “desculpabilizarem criminosos”, apenas porque resolveram introduzir uma pitada de sociologia no debate.
O que realmente se destacou na primeira quinzena de Maio foi, antes de mais nada, a sintonia dos discursos da parte de quem escreve em jornais e tem como função transmitir ao público as ordens emanadas das instâncias superiores. Não deixa de ser clássico, mas seria necessário recuar umas décadas para encontrar tantos e tão primários adjectivos para caracterizar as “classes perigosas”. Definitivamente, no que toca à repressão nos bairros pobres, existe uma agenda de extrema-direita que não brinca em serviço e que escreve editoriais. Todos os editoriais.
Deixando de fora os casos óbvios dos órgãos centrais da PSP (o Diário de Notícias, o Correio da Manhã e outros “jornais”), quem abrisse o Público, o Expresso, ou o fantasmagórico i, procuraria em vão uma variação no discurso, nos qualificativos, na caracterização do problema. “Gente que não quer trabalhar”, “pessoas que vivem do rendimento mínimo”, “jovens que roubam para comprar roupa de marca e telemóveis”, “moradores que destroem as casas que lhes foram oferecidas”, “criminosos perigosos”, “janelas partidas”. Alguém abriu o armário onde se escondem todos os fantasmas da burguesia – pobres que se recusam a trabalhar pelos ordenados de miséria e nos empregos de merda que lhes são disponibilizados.
Mas qual é o espanto que os pobres façam à sua maneira o que os ricos fazem descomplexadamente? Um conselheiro de Estado (que até já foi, imagine-se, o ministro das polícias de um governo que mandou polícias carregarem sobre polícias) comprou firmas fictícias em Porto Rico a um traficante de armas libanês (não um qualquer, mas um amigo da família real espanhola...) com dinheiro que não era seu, foi à Assembleia da República explicá-lo candidamente, e tudo o que lemos foram cautelosas reservas quanto à sua conduta. Toda a hipócrita indignação e todo o racismo de classe com a qual foram brindados os moradores da Bela Vista revela apenas a miséria do jornalismo em Portugal e a incapacidade policial de conter uma revolta que brota por todo o lado.
Num país a sério – para falar a linguagem provinciana das elites portuguesas – teriam ardido muito mais carros.
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#1.- Traducción por favor
rubén|02-07-2009 16:38
Por favor traducidlo! es que bastantes de los que leemos kaos no hablamos más que el castellano
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#2
02-07-2009 20:48
nada que no es tan dificil leer el portugues, y si empiezas ahora en un mesecito lo controlas sin ningun problema. en serio tiene razon la gente de otros paises de europa, la gente del estado español es muy baga y comodona y cree que con saber su idioma ya es suficiente. por otro lado puedes poner la noticia en google traductor y a traducir.
salude e anarquía
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