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Cartas do Haiti II - Nas ruas de Le Cap, relato do quarto dia da viagem ao país ocupado
“Aqui existe um ódio enorme contra a Minustah, mas ainda é diferente por serem brasileiros, argentinos, paraguaios. Se fossem norte-americanos já teria explodido tudo”.
Eduardo Almeida | PSTU | 14-12-2009 a las 12:14 | 1459 lecturas
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Cartas do Haiti II - Nas ruas de Le Cap

Passo pelas ruas estreitas de um bairro pobre em Le Cap, a segunda cidade do Haiti. Acabei de sair de uma sede de Batay Ouvryé (Batalha Operária) o­nde conversei com operários agrícolas da região. Aqui não há grandes indústrias. As grandes fazendas de café e laranja são as dominantes, e Batay Ouvryié dirige praticamente todos os sindicatos locais.

O céu limpo diminui a escuridão completa na favela sem iluminação. As estrelas conhecidas reforçam a sensação de familiaridade. Ando tranqüilo, como não faria como estranho em uma favela nos morros de minha cidade natal, o Rio de Janeiro. A violência urbana no Haiti é incomparavelmente menor que no Brasil. É um povo simples, alegre, dócil, que me faz lembrar a frase de Trotsky: “As revoluções são impossíveis, até que se tornam inevitáveis”.

Este povo se tornou o primeiro país livre do domínio colonial pela revolução de 1804 e derrubou uma das ditaduras mais sanguinárias da história (Duvalier).

Isso vale ser recordado nos dias de hoje. O imperialismo desenvolve uma ofensiva recolonizadora fortíssima, com todo o processo da globalização e os planos neocoloniais. Existem distintos estágios dessa recolonização, que incluem o controle de ramos das economias de nossos países, a privatização das estatais, abertura das fronteiras, etc. Em alguns países a situação é ainda mais grave, com a economia dolarizada (como no Equador) e outros já com tratados de livre comércio (como o Nafta do México, os TLCs da América Central).

Mas o Haiti já é diferente, voltou a ser uma colônia. O país tem um “acordo de livre comércio” com os EUA, através da Lei Hope, com toda a economia a serviço das multinacionais. O Haiti não tem forças armadas, substituídas pela Minustah, comandadas por tropas brasileiras. Tem um governo fantoche, manipulado grosseiramente pela embaixada ianque. Como se não bastasse, ainda tem sua costa e seu espaço aéreo entregues oficialmente ao controle da DEA (departamento anti-narcóticos dos EUA).

Não existe nada que justifique definir o Haiti hoje de forma distinta. O fato de existirem eleições não muda nada. Também existiam na Índia, quando ainda era colônia inglesa.

Como um país que fez uma revolução fantástica como o Haiti, chegou a essa situação? Depois de 1804, o país estava devastado pela guerra e teve de enfrentar o bloqueio comercial imperialista por 60 anos. Além disso, o governo Boyer reconheceu uma dívida à França, como pagamento pelas propriedades dos colonos pela independência. Esse foi, talvez, a primeira grande penalização de um país pela dívida externa: o país teve de dedicar dois terços de seu orçamento por mais de 40 anos para pagar uma dívida brutal. Com isso, deixou de ser independente para retornar a um status semi-colonial, e uma miséria permanente. Na verdade, o imperialismo nunca perdoou a ousadia da revolução e fez o país pagar duramente por esse “pecado”.

O Haiti foi ocupado pelos EUA entre 1915 e 34, nas primeiras manifestações do novo imperialismo dominante. Toda sua história depois, seja nas muitas ditaduras ou nos poucos governos eleitos, incluiu sempre a pressão e o controle do vizinho poderoso.

Até que em fevereiro de 2004, o imperialismo invadiu de novo o país. O presidente eleito (Aristides) foi preso em sua própria casa por tropas francesas e norte-americanas e deportado. Depois veio a Minustah, com a invasão legalizada pela o­nU.

É uma ironia da história que o país que viveu a primeira revolução anti-colonial no século XIX, exatamente 200 anos depois se transforme na primeira colônia do século XXI. Outra ironia é que o exército que garante pela força a submissão colonial do Haiti seja comandado e composto por vários dos governos “progressistas” da América Latina como Lula, Evo Morales, Lugo, Kirchner, etc.

Enquanto ando pelas ruas de Le Cap, lembro das palavras de um operário de uma fazenda de café: “Aqui existe um ódio enorme contra a Minustah, mas ainda é diferente por serem brasileiros, argentinos, paraguaios. Se fossem norte-americanos já teria explodido tudo”.

 

 

 

 

Eduardo Almeida, da Opinião Socialista, direto do Haiti

 

 
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