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As ilusões da esquerda
O neoliberalismo e o capitalismo só terminarão se os derrobarem. Não o sendo, o neoliberalismo será substituído por outro modelo, organizado e dirigido pelas mesmas forças dominantes de hoje.
Emir Sader | Para Kaos en la Red | 5-11-2009 a las 15:30 | 969 lecturas
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Bertolt Brecht chamou sempre a atenção sobre a necessidade de tomar o inimigo pelo seu lado mais forte, não subestimá-lo, sob o risco de iludir-nos e preparar-nos para derrotas e não para vitórias. A esquerda – especialmente em tempos ruins para os ideais de esquerda – corre muitos riscos de cair em ilusões fáceis, o melhor caminho para a derrota.

Mecanismos de auto-satisfação podem servir de forma imediata para elevar a auto estima de uma esquerda muito golpeada por sucessivas derrotas e retrocessos, mas não substitui uma análise rigorosa das situações concretas, não para nos determos nas denúncias, mas para propormos alternativas de superação das crises pela esquerda.

Uma grande ilusão que grassou amplamente na esquerda nos últimos meses foi a de que a crise capitalista actual levaria ao fim do neoliberalismo – que, para alguns, já terminou – e, até mesmo, do capitalismo. Que, paralelamente, a hegemonia norte-americana do mundo também estaria esgotada, superada, derrotada. Como se, por um passe de mágica, sem que forças antineoliberais e anticapitalistas tivessem construído projectos alternativos e capacidade de mobilização, de tomada de consciência, de organização e de acção, o neoliberalismo e o capitalismo fossem derrotados pelas suas próprias contradições internas.

Algumas visões, pela transferência mecânica da crise de 1929, chegaram a afirmar que entrávamos numa era de guerras – sem dizer que outra potência ou grupo de potências as protagonizariam como no caso anterior, porque as contradições actuais entre as grandes potências, e mesmo com algumas emergentes como a China, se resolvem por outras vias que não a guerra, restando estas como guerras imperialistas localizadas, como as do Iraque, do Afeganistão, da Colômbia.

Nada mais equivocado e nada prepara mais o caminho para novos reveses da esquerda do que esse tipo de análise. Nem o neoliberalismo, nem o capitalismo, terminarão, se não são substituídos. Se se esgota o neoliberalismo, por exemplo, e não existe alternativa e força de esquerda para substituí-lo, poderá ser sucedido por outro modelo, organizado e dirigido pelas mesmas forças dominantes de hoje.

As visões que anunciam o fim desses modelos hegemónicos e formas de organização da sociedade e do Estado, sem apontar quem os derrubaria e por que seriam substituídos, estão a supor uma sucessão mecânica de modelos e de formas de sociedade, independentemente da intervenção dos homens. Seria um retrocesso a visões organicistas da história, segundo as quais haveria uma sucessão predeterminada de modos de produção e um finalismo, que conduziria a história numa determinada direcção, sem intervenção dos homens, dos Estados, das forças organizadas, defendendo interesses determinados.

Quando aos catastrofismos anunciados, se sucede, não a superação dos modelos hegemónicos, mas a superação relativa da crise, esses arautos da catástrofe ficam despreparados para dizer qualquer coisa, a não ser anunciar que “o pior está por vir”. Depois de ter tomado a interpretação de Lenin sobre o imperialismo como «a fase superior» do capitalismo, como sua fase última – e não como sua fase superior –, o movimento comunista internacional, para compensar o isolamento e a fraqueza da URSS nos anos 1930 e 40, com o auge do fascismo, passou a falar de “segunda etapa da fase final do capitalismo”, e assim sucessivamente.

Os catastrofismos sempre fracassaram, revelaram-se inócuos depois do impacto que suas previsões, supostamente fundadas na realidade, provocaram. O mais tradicional deles, o malthusianismo, revelou-se falso, porque produz-se alimentos mais do que suficientes – praticamente o dobro – do que a humanidade requer, só que pessimamente distribuídos. O problema dos catastrofismos – biológicos, económicos, ecológicos – é que não levam em conta as contratendências, tomam uma tendência real e a projectam mecânica e linearmente para o futuro. Os chineses já possuem a maior indústria automobilística do mundo, contaminam o meio ambiente, mas isto não leva a uma catástrofe ecológica mundial.

Gramsci comentava as previsões de Trotsky sobre o carácter socialista da revolução à escala mundial, dizendo que se é certo que um dia cada menina se tornaria uma mulher, nem por isso ela deveria ser violentada quando era menina, para apressar esse processo. Os processos históricos são resultado das condições objectivas e da acção – consciente ou não – dos homens sobre essas condições. O mundo não caminha para o socialismo, independentemente dos projectos e das forças que se organizem em função desse projecto, da mesma forma que a humanidade não está condenada a viver sob o capitalismo. A história é um processo aberto, que depende da acção consciente e organizada dos homens e mulheres, como o momento actual o confirma.

 
 
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