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Apuntes para um ensaio: Monteiro Lobato, Jeca Tatu, Mazzaropi- Brasileiros do Vale do Paraíba, São Paulo
“A nossa literatura é fabricada nas cidades”, dizia, “por sujeitos que não penetram nos campos de medo dos carrapatos”.Lobato O Funeral de Monteiro Lobato por Enio Silveira ****
Osmar Gomes da Silva | Para Kaos en la Red | 15-4-2009 a las 17:10 | 5279 lecturas
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Escritor Monteiro Lobato-Óleo por J. U. Campos

O escritor Monteiro Lobato esta para o Jeca Tatu, assim como o artista Mazzaropi esta para o Jeca Tatu, que esta parao escritor Monteiro Lobato, que esta para o artista Mazzaropi,que esta para o escritor Monteiro Lobato.

Fechado o circulo vicioso concluímos que Lobato, Jeca e Mazzaropi saíram das páginas de Velha Praga e Urupês, em 1914, para se constituir no caipira de imensa ingenuidade, barba rala e calcanhares rachados do Vale do Paraíba e do Oeste Paulista ou simplesmente o trabalhador rural paulista. Mas o contrario também pode ser verdadeiro. A Criatura é o Criador que é a própria Criatura.



                        O Criador

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Em 1914, Monteiro Lobato, fazendeiro de Taubaté, no interior de São Paulo, escrevera dois artigos para o jornal "O Estado de São Paulo”, nos quais se queixa sobre os caboclos do interior, inadaptáveis à civilização. O artigo com maior repercussão foi justamente o sobre Jeca Tatu, figura criada por Lobato para descrever o caboclo que vegeta de cócoras, piolho-da-terra, capiau sem vocação para nada, a não ser a para a preguiça, "urupês" (parasitas que vegetam nos ocos das árvores e que acabam por matá-las). O nome Jeca virou sinônimo de bobo, ingênuo.

Monteiro Lobato* virou escritor e a figura do Jeca tornou-se famosa no país. O escritor percebeu, então, que os caipiras eram barrigudos e preguiçosos por motivo de doenças e não por opção. Assim ele se arrependeu de tê-los ofendido, pediu desculpas. Escreveu novas histórias nas quais o Jeca conseguiu curar suas doenças, comprou uma fazenda e ficou rico. A figura foi utilizada pelo político Rui Barbosa, que fê-lo símbolo do descuido dos governos para com a população. E o Biotônico Fontoura (Fortificante da Época) tornou o Jeca ainda mais conhecido.

Através desse caboclo magro e sem vontade, vendeu milhões de vidros de seu fortificante. E para as crianças, as aventuras do Jeca foram transformadas em quadrinhos.

Quer dizer o escritor José Bento Monteiro Lobato por ele próprio. Se arrepende e faz auto critica. Mea culpa, Mea Máxima Culpa.

A Criatura

 

Jeca Tatu*** – o "piolho-da-terra”

Uma figura literária de imensa ingenuidade representa o Brasil caipira, do interior, do sertão, do homem do campo: Jeca Tatu, personagem fruto da imaginação do escritor José Bento Monteiro Lobato.
Hoje vamos dar uma olhadinha na figura do Jeca Tatu, personagem que imortalizou e que foi imortalizado nos filmes cinematográficos pelo ator Amácio Mazzaropi. Mesmo batendo todos os recordes nacionais de bilheteria, Mazzaropi era odiado pela crítica

A criatura ganha forma Humana



 
Amácio**, filho de um casal classe média, era um moço com muita preguiça: mal conseguiu terminar o ginásio. Do avô Amácio Mazzaropi, homem do interior, não herdou só o nome, mas o gosto pela vida do campo.

Porém, o que mais fez sucesso foi a encenação da figura do Jeca Tatu pelo ator Amácio Mazzaropi. No começo da sua carreira, Mazzaropi apresentou personagens semelhantes com o estereótipo de Jeca Tatu, até o ano de 1958, quando interpreta o próprio personagem em filmes de mesmo nome como "Tristeza do Jeca”, "O Jeca e a Freira”, "O Jeca Macumbeiro”, "O Jeca contra o Capeta”, "Jecão Superjeca– um Fofoqueiro no Céu”, "Jeca e seu Filho Preto” e "O Jeca e a Égua Milagrosa”, seu último trabalho, lançado em setembro do ano 1980.

Mazzaropi conseguiu perpetuar no imaginário coletivo um estereótipo de caipira com toques de irreverência, astúcia e uma ingenuidade que levava o público a rir e se emocionar através de suas histórias.

Os críticos classificavam seus filmes como o retrocesso do cinema brasileiro e o seu caipira estilizado.

A crítica de Orlando Lopes Fassoni na "Folha de S. P.”

 

" Durante todos esses anos bancando o caipira - falso, diga-se - Amácio Mazzaropi não teve nenhum filme que pudesse ser inserido entre o que houve de bom no cinema brasileiro. Mas sempre vendeu seu peixe com sucesso, metido nas roupas dos jecas e pregando uma falsa apologia de bondade.

Hoje, Mazzaropi não passa de uma caricatura de si mesmo: um caipira que perdeu o único elemento que possuía para construir seu tipo, ou seja, a naturalidade”

 

Assim, Mazzaropi deplorava os críticos de cinema.

Amácio Mazzaropi em desabafo:

"É fácil um fulano sentar numa máquina e escrever: "Hoje estréia mais um filme de Mazzaropi. Não precisam ir ver, é mais uma bela porcaria”. Mas não explicam por quê. Talvez com raiva pelo fato de eu ganhar dinheiro, talvez por acreditarem que faço as fitas só para ganhar dinheiro. Mas não é verdade, porque o maior de todos os juízes fugiria dos cinemas se isso fosse verdade - o público.

É preciso acabar com esse negócio que cinema tem que transmitir mensagem tem que educar o povo. Nós não somos escola (...) eu tenho é que fazer rir. Eu não tenho nada com esse problema de mensagem para cá mensagem para lá. Educar o povo é problema do Ministério da Educação, não é comigo”.

Mazzaropi parecia ser um homem simples, como os personagens dos seus filmes.

Nasceu o caipira Mazzaropi, que fala e pensa arrastado – uma figura simples como seu fiel público:

"O público é simples, ele quer rir, chorar, viver minutos de suspense. Não adianta tentar dar a ele um punhado de absurdos: no lugar da boca põe o olho, no lugar do olho põe a boca. Isso é para agradar intelectual.”

Através da figura do Jeca Tatu, Amácio Mazzaropi virou um homem rico, produzindo seus próprios filmes nos seus estúdios numa fazenda de 184 alqueires no Vale do Paraíba - Taubaté – lugar o­nde, muitos anos antes, o escritor Monteiro Lobato nasceu e o­nde a história do Jeca começou.

A verdade todos nós, os caipiras do Brasil sonhamos com o destino de Jeca Tatu ou Mazzaropi – deixar de ser piolho e virar um “ fazendeiro rico” ou fazer melhor, aReforma Agrária e o Socialismo. Bem, esta foi história que Monteiro Lobato não escreveu, mas, quem sabe, pensou escrever.

 

Osmar Gomez da Silva



*José Bento Monteiro Lobato- (Taubaté, 18 de abril de 1882 + São Paulo, 4 de julho de 1948) foi um dos mais influentes escritores brasileirosdo séculoXX

.** Amácio Mazzaropi - (São Paulo, 9 de abril de 1912 + São Paulo, 13 de junho de 1981)ator de cinema, teatro e cineasta brasileiro.

***Jeca Tatu MazzaropiMonteiro Lobato- Vivo, depois de beber o Biotonico Fontoura, eliminar as lombrigas e calçar botinas esta no M.S.T. para a Reforma Agrária Já.

   

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O Funeral de Monteiro Lobato

Eu era amigo do Lobato, portanto, vocês hão de compreender que, por mais do que profundas e dolorosas razões, compareci ao enterro e fiquei o tempo todo grudado ao caixão do Monteiro Lobato. Foi, para dar uma pálida idéia, um enterro comparável ao do cantor Francisco Alves, multidões, multidões. Calculo que havia umas duzentas mil pessoas da cidade de São Paulo. São Paulo parou. A morte de Lobato – não é Getúlio Vargas não, é um escritor que morreu – parou a cidade de São Paulo, o centro da cidade, as lojas espontaneamente fecharam as portas. Aquela massa compacta subindo a Consolação – vinda do centro da cidade, no cemitério, esperando o enterro. Estive o­nde foi velado o corpo, em Campos Elíseos, depois fui para o cemitério esperar. Pois chegou aquela multidão, fervendo, compacta, sólida, e então fiquei ao lado do túmulo vendo aquela cena maravilhosa. O Lobato era, entre outras coisas fascinantes, acusado de comunista; ele não era propriamente comunista, mas simpatizava com o partido. Ele foi muito atacado pela Igreja, o Lobato foi muito acusado. Não era membro do partido, mas era muito amigo de comunistas e sempre esteve ao lado do partido nos momentos mais difíceis. Mas, ao mesmo tempo, ele era espírita e comparecia às Sociedades Espíritas - ia para a Europa em espírito -, acreditava no Além, kardecista, não sei o quê, mas espírita. Era, ao mesmo tempo, barão rural, da aristocracia rural, ele era visconde, se houvesse o Império ele ainda seria visconde. Também era membro de uma Sociedade Agrícola de São Paulo, do Clube Piratininga e de outras coisas que reuniam a aristocracia rural paulista. Era também bom escritor, portanto tinha a sua grei de escritor-jornalista. Ali, “namorava” também alguns trotskistas, que por isso o julgavam trotskista.

Bom, então, esta fauna diversa, multifacetada, se reuniu ali, à beira do túmulo. Quando iam descer o corpo, um pouco antes, pediu a palavra arrebatadamente o Rossini Camargo Guarnieri, poeta, membro do Partido Comunista:

- Camarada Lobato - era ditadura, o partido era ilegal -, estamos aqui, teus irmãos, não apenas para chorar por ti, mas para dizer que jamais morrerás, que estarás vivo na consciência do povo, no coração do povo, como um batalhador, como um companheiro…

- Perdão, companheiro não! Lobato era trotskista – era o professor Phebus Gikovate. - Canalha, filho da puta …

Principiaram aí cenas de pugilato, soco, caíram os dois, e rolaram no chão, o Gikovate e o Camargo Guarnieri caíram na cova aberta. Uma cena de filme de Felini. Quando tiraram os dois, um sujeito Clube Piratininga disse assim:

- Não, o senhor Lobato era da fina aristocracia, se tivéssemos ainda o Império, ele seria um nobre, nobre por dentro e nobre por fora. Lobato…

Era uma gritaria. D. Purezinha, viúva do Lobato, chorava, na verdade, não sabia se chorava ou ria. Eu achando que o Lobato gostava muito dessas cenas, estava me divertindo imensamente. *

Eu me divirto também: acho que o fato de o Lobato se simpatizar com pessoas de vários “-ismos” diferentes é parte do que faz dele uma figura tão singular. O difícil é assistir a briga dos “-ismos” dos outros sem levar uns tapas…

 

Ênio Silveira, Coleção” Editando o Editor”, v. 3, Edusp, São Paulo, 1992.

    **** Ênio Silveira, (18 de novembro de 1925 +11 de janeiro de 1996) foi um editor brasileiro e militante do Partido Comunista Brasileiro.

Ênio Silveira, e de seu trabalho à frente da Editora Civilização Brasileira, o desenvolvimento do campo intelectual do Rio de Janeiro, durante as décadas de 1950 e 1960. Seu objeto central é o período compreendido entre os anos de 1964 e 1968, período no qual a editora publicou o importante periódico Revista Civilização Brasileira, um marco do pensamento político e cultural brasileiro e da resistência ao regime militar.

Filiado ao Partido Comunista, em 1951 Ênio, então com vinte e cinco anos, é designado por seu sogro a assumir a direção da Editora Civilização Brasileira, que, até então, era apenas uma subsidiária da paulista Companhia Editora Nacional no Rio de Janeiro. Vindo de um período nos Estados Unidos, o­nde fizera cursos sobre o campo editorial e mantivera contato com profissionais e empresas do meio, Ênio Silveira faz uma revolução na editora, provocando uma total ruptura com o momento anterior. modo independente frente ao Partido Comunista.

Apesar de seu engajamento político, não permitiu, que a editora se transformasse em um apêndice Partido Comunista, e, assim, pode publicar autores não alinhados com o partido.


      Altera a linha editorial, antes baseada na publicação de livros didáticos; implementa modificações gráficas inéditas no Brasil, como o uso da brochura e a utilização de gravuras nas capas e no interior das obras, tornando-as mais atraentes; publica livros de bolso, de baixo custo, sobre temas políticos e sociais, com o intuito de levá-los a um número maior de pessoas; lança jovens autores brasileiros, como Carlos Heitor Cony e Paulo Francis, outros já consagrado e, pioneiramente no Brasil, clássicos do pensamento teórico de esquerda, como Gramsci entre outros.

     

 
 
Más información:

Video- Jeca(Mazzaropi) contra o capeta


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